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A ‘Quininha Padeira’

Houve um tempo em que as estrelas parece que faziam mover o universo dum modo suave, à maneira como todos a gente revê tempos passados, ainda que nem sempre bem passados. Mas a apalavrar-se outras feições, nas aparências que perduram. Movendo-se imagens que passam diante dos olhos da rememoração.


Assim, na ligação telúrica de algo ou alguém, entre temas de afeição, há certa apetência por juntar coisas inerentes a uma espécie de vocação. Como quem junta lembranças dum conjunto de circunstâncias que completam todo um vasto espaço de relação vinculativa.
Quão, num relâmpago de memórias surge ideia de lembrar justamente pessoas normais mas muito úteis à sociedade, de outrora, como no caso desta vez a evocar.


Então, como quem ouve uma canção pela própria música (e quando em línguas estrangeiras quantas vezes nem percebendo patavina do que diz a letra), também se pode recordar gente que se conheceu mais pelo que ouvimos. Quão num caso duma senhora que, já em criança ainda eu soube dela ser prestável a ajudar aos nascimentos.
Ora, num dia algures pelos anos de minha infância, andando entre coleguinhas de brincadeiras pelos caminhos das quatro barrocas da Longra e, dali próximo, vi correr uma senhora bem conhecida, saída à pressa de sua casa do lugar das Cortes Novas, levando embrulho de qualquer coisa debaixo do braço.

Vendo-a depois, na minha curiosidade de observador, a entrar noutra casa dali à beira. Mas depressa aquilo se me varreu da cabeça, estando com sentido na troca de “macacos” com colegas, para obter mais alguns cromos de jogadores da bola para a minha caderneta, como era acotiado ao tempo. Eis senão que ouço então um choro de bebé a vir daquele lado, ficando todos a olhar para o que seria. Até que vimos a senhora que ali entrara a vir fora com um alguidar de barro…


Pois isso ficou-me na curiosidade infantil e só mais tarde percebi do que se tratara. Ficando ainda mais admirador daquela senhora. Pois por isso mesmo, também assim, entre uma coleção mental e física de recordações, apraz elevar mais um dos casos de pessoas que por algum motivo de apreço de vez em quando afloram a nossas recordações.
Ora, entre tais memórias bem guardadas temos terna ideia de pessoas conhecidas ao longo da vida, que nos embalam imagens de outrora e abraçamos ainda cá dentro na lembrança de pessoas populares e, por assim dizer, de utilidade pública. Tal o caso, acima já adiantado, da referida senhora da Longra, a Quininha Padeira, assim conhecida, ela que era artista no mister de parteira tradicional.


Tendo já sido lembradas outras pessoas de boa memória, desta feira é oportunidade de fazer justiça a essa pessoa, sobre a qual, calha aqui e agora prestar-lhe uma homenagem, com umas linhas escritas das que dedico a figuras populares de antigamente.
Joaquina Nunes, tal era a sua graça de batismo e registo civil, natural do concelho amarantino, veio na sua juventude para terras de Felgueiras graças a então haver na Longra trabalho de panificação, a que estava afeita. Nascida num dia de setembro de 1906 na freguesia de Santa Maria de Gondar, de Amarante, era padeira de profissão. Não admirando que popularmente ficasse assim conhecida como Quina Padeira na terra que passou a ser sua. Visto ter constituído família no rincão de seu marido, que conheceu precisamente por via de seu trabalho.

Decorrendo toda uma vida de dedicada esposa, mãe de 12 filhos a tempo inteiro, entremeando com mister de habilidosa a ajudar mulheres a terem seus filhos, à maneira antiga, em casa de cada uma. Quer de pessoas do povo comum como de gente rica, nesse tempo em que os nascimentos eram naturais, nos modos de antanho. Sendo assim como parteira não diplomada, por carolice, que por suas mãos chegaram ao mundo muitas vidas, havendo ajudado a puxar à luz inúmeras crianças da região, da própria terra como das freguesias vizinhas e até algumas na própria sede do concelho de Felgueiras. Coisa que ela fazia e bem de cara alegre. Como a lembro, num sorriso de pensamento, mais.

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