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Sexta-feira, Fevereiro 3, 2023

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Daniela Coutinho é investigadora farmacêutica na luta contra o cancro

Ana Daniela Coutinho Alves tem 30 anos e está atualmente no Doutoramento em Ciências Farmacêuticas na FFUP (Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto). Uma mulher apaixonada pela área da investigação e que está a levar a cabo o estudo
de um novo composto que atua nas células tumorais do cérebro.

Licenciou-se em Farmácia, na Escola Superior de Saúde do Porto, em 2015, mas o seu sonho era ser dentista. A média não o permitiu, mas entrou em Farmácia e decidiu aceitar o desafio. Durante os anos de licenciatura fazem muita produção desde supositórios, comprimidos, cápsulas, cremes… o que a fascinou completamente.
A área da investigação surge no final da licenciatura aquando do seu estágio numa farmácia. Fez três meses em farmácia comunitária, três meses em Erasmus em Bolonha, Itália, e depois em farmácia hospitalar. Aí percebeu que não gostava de nada a não ser investigação. Em Itália começou a trabalhar com compostos para o Alzheimer e a professora que teve foi também crucial para perceber que queria continuar na área e ir para um Mestrado relacionado com investigação, Química Farmacêutica.
O primeiro ano de Mestrado é constituído por aulas teóricas e práticas e é no segundo ano que lhes é atribuído um tema sob o qual têm de investigar.

É então que no ano de 2017, para terminar o seu mestrado, publica o seu primeiro artigo numa revista científica com o tema: “Discovery of a New Xanthone against Glioma: Synthesis and Development of (Pro)liposome Formulations” que se tornou a “peça-chave” para o seu Doutoramento. Esteve sempre ciente da importância de um Doutoramento para conseguir prosseguir com a investigação.
Daniela trabalhava no laboratório de uma farmácia na parte de laboratório de manipulados, de forma a não estar parada depois de terminar o seu mestrado, e no final do dia ia para a faculdade para escrever o seu artigo, que demorou cerca de um ano a ficar pronto.
Com uma linguagem simples, tentou explicar do que se tratava esse primeiro artigo…
Há um composto que foi produzido e sintetizado pelo laboratório de Química Orgânica da FFUP e que apresentou atividade contra células tumorais cerebrais. Esse composto tinha um grande problema porque danificava os tecidos normais/ vivos por ser extremamente potente. Tal como a quimioterapia, que para além de matar as células más, acaba sempre também por mexer com as boas. Arranjaram então uma estratégia de tentar encapsular esse composto para ele não danificar as células vivas e ir direcionado para o tumor. Começou por trabalhar com lipossomas porque já estão estudados e, visto que estava ainda no mestrado, tinha de ser um assunto que já fosse minimamente estudado e que conseguisse fazer num ano. Teve bons resultados, conseguiu ir até à parte in-vitro, conseguindo mostrar que o composto tem atividade nas células tumorais no gliobastoma (cancro cerebral). Com testes em células normais ele (o composto) era problemático e dentro dos lipossomas ele não apresentava toxidade. No entanto, conseguiram fazer com que esses lipossomas se degradassem, devido a um conjunto de fatores, como o ph acídico e células tumorais, e libertassem o composto nesse mesmo local. Por isso é que com as nanopartículas o composto apresentou atividade.


O seu currículo, o artigo científico, as comunicações orais, o projeto, cursos/formações que tirasse entretanto e a própria faculdade são fatores importantes para conseguir ganhar a bolsa do Doutoramento.
Um ano antes, em 2018, ganha uma bolsa de investigação da Universidade Nova de Lisboa para onde vai durante meio ano. Admite que vai para Lisboa pois nunca imaginou que iria conseguir o Doutoramento.
Durante o Doutoramento, que faz no Porto, continua com o mesmo composto que estava a ser trabalhado no Mestrado, mas a estratégia teve de ser alterada. No Mestrado trabalhou com lipossomas, que está provado que são nanopartículas que não têm muita estabilidade e isso não era vantajoso para ela. Como tinha de escrever um projeto, começou a pesquisar e encontrou que em Londres faziam nanopartículas poliméricas. Sem saber do que se tratava, começou a pesquisar acerca do assunto e diz que ficou entusiasmada. Eram biodegradáveis, tinham estabilidade, os polímeros já tinham sido aprovados pela FDA, ou seja, todas as desvantagens das outras nanopartículas, estas não tinham. Em conversa com os professores, estes incentivaram-na a avançar com o projeto, algo que exigia muito estudo e pesquisa, porque era um mundo completamente desconhecido. Tentou sempre ser o mais clara possível na forma como transmitia o seu conhecimento, pois, para ela, não ganhava nada em escrever algo que os outros não entendessem.
Começou a fazer as suas experiências. Os seus trabalhos laboratoriais são muito semelhantes aos do Mestrado, pois trabalha com as mesmas tecnologias/técnicas, mas os lipossomas eram produzidos por uma técnica, enquanto que estes tem de usar a química orgânica em conjunto com a tecnologia farmacêutica, pois necessita de outro tipo de respostas mais aprofundadas. Considera que o facto de já vir do Mestrado com bastantes conhecimentos ao nível da nanotecnologia a ajudou a superar alguns dos desafios do doutoramento.
Durante este período, propôs-se a ir para Barcelona, para o Instituto de Bioengenharia da Catalunha, trabalhar com o “rei da investigação em nanopartículas poliméricas”, Giuseppe Battaglia, mas nunca pensou em ser aceite.
Quando foi à entrevista, este mostrou-se muito recetivo e entusiasmado por em Portugal alguém estar a estudar/investigar o assunto. Confessa que com ele aprendeu imenso e que mudou por completo a sua estratégia. Percebeu que era possível fazer as coisas de forma mais simples, porque o facto de trabalharem com esta matéria há alguns anos, faz com que tenham soluções mais práticas para chegarem a conclusões.
Esteve em Barcelona durante meio ano. Ao longo desse tempo foi desenvolvendo o seu trabalho e chegou à conclusão de que “não chega a nanopartícula com o composto encapsulado. Quando injetado, a nanopartícula não sabe exatamente para onde ir e, por isso, são colocadas “antenas/sinais” (ligandos), para saber exatamente o caminho que deve percorrer”.
Contou-nos que vai continuar a desenvolver o seu trabalho, no Porto, e vai continuar a utilizar as técnicas e estratégias aprendidas em Barcelona. O próximo passo será trabalhar in vivo com as nanopartículas que obteve resultados promissores em Barcelona.
O seu Doutoramento termina em janeiro de 2024. Resta-nos desejar boa sorte e reservar uma próxima edição para revelar os resultados de sucesso.

Elsa Ferreira

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