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Cultura em pandemia, sem palco e sem pão-de-ló


Nuno Higino é o nosso ilustre entrevistado desta semana. Um apaixonado pela cultura e pelas artes. Escritor de poesia, grande apreciador de arquitetura e atual dinamizador cultural na Casa das Artes de Felgueiras.

E, se por um lado a cultura e as artes não são populares, por outro, a cultura representa a identidade de um país, de uma região, de um local. As pessoas são eminentemente culturais, necessitam de cultura como alimento, como alimento para o espírito, para iluminar e projetar a vista para mais longe.

Como nos disse o Prof. Doutor Nuno Higino “o instinto popular é irracional, é preciso que os líderes vejam mais à frente”, “as artes oferecem uma grande resistência, são o contrário da demagogia”. Compreendemos todos, apesar de não refletirmos muito sobre a temática, que a cultura está ameaçada em tempos de pandemia, eu diria que mesmo em tempos normais a cultura está ameaçada, porque será sempre muito incompreendida e porque exige-se que os recursos financeiros devam ser canalizados e aplicados a pensar na sobrevivência imediata e aparentemente a cultura e os seus agentes (públicos e privados) e as várias formas de arte (a música, a dança, a escultura, a pintura, a arquitetura, o teatro, o cinema, a literatura) não são necessárias para a tal sobrevivência e, são, portanto, desconsideradas.

Mas então, acreditamos que não precisamos da cultura? Que vivemos sem ela?

Penso que seria benéfico uma correta definição sobre este tema e uma mais focada estratégia de investimento na cultura em Felgueiras impulsionada por quem sabe da matéria. Porque, se por um lado temos um excelente programador cultural na Casa das Artes em Felgueiras, ao invés temos ações mascaradas de cultura e descabidas de lógica como “Abraços à população” com espetáculo musical, que na minha ótica é um demagógico apelo ao coração que não tem efeito prático na qualidade de vida da população mais vulnerável e não combate o isolamento social. As ações que visam sinalizar e apoiar os mais carenciados não são publicitadas, devem ser efetivas e duradouras, pensadas para acompanhar, resolver e atenuar os problemas emocionais, afetivos e económicos. Ou ainda a iniciativa altamente publicitada da oferta de 1000 pães de ló de norte a sul do país para promover a doçaria tradicional? Como estratégia de promoção cultural e turística? Numa altura em que os vários atores culturais estão a passar momentos tão difíceis, o Município define como prioridade a oferta de Pão-de-Ló pelo país?

Felgueiras precisa de uma estratégia cultural efetiva, que dinamize as artes e os seus agentes culturais, que dê continuidade e reforce ações que envolvam a população e os nossos artistas, os cantores, os escritores, os bailarinos, os pintores, os atores, os músicos, os artesãos, os historiadores e tantos outros. Tem que se semear algo que perdure e nos identifique com a Terra.

A nossa cultura espera um palco para atuar.

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