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“Mulheres na Ciência” – Entrevista a Ana João Rodrigues, Neurocientista no Dia Internacional da Mulher

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No Dia Internacional da Mulher, o SF publica duas entrevistas realizadas por alunas da Escola Básica e Secundária de Idães.

Desde sempre se ouviu falar de grandes nomes como Isaac Newton, Charles Darwin e até Alexandre Quintanilha, homens que revolucionaram e que ficaram conhecidos pelos seus ilustres trabalhos. No entanto, cada vez mais se tem feito ouvir a voz das mulheres cujo percurso não foi sempre fácil nem elogiado. Lutadoras por natureza conquistaram o direito a pronunciarem-se numa sociedade conservadora e machista, conquistaram o direito ao voto e à liberdade. Hoje, no dia internacional da mulher, entrevistamos mulheres que, devido ao seu esforço e dedicação, foram pioneiras em várias áreas e deixaram a sua marca na ciência e no país.

“Na academia nunca senti que o meu trabalho fosse olhado de forma diferente por eu ser mulher”

Ana João Rodrigues, neurocientista. Professora e investigadora na Escola de Medicina na Universidade do Minho que, devido ao seu trabalho e conquistas continuará a deixar a sua marca no mundo da ciência.

Ana João Rodrigues, Neurocientista

Relativamente ao seu percurso e à sua formação, gostaríamos de saber como foi o Ensino Secundário, se sempre teve certeza daquilo que gostaria de ingressar no ensino superior, ou seja, se esta paixão pela Biologia Aplicada, pela neurociência esteve sempre presente ou se foi algo momentâneo. 

Eu sabia que queria ser cientista desde que me lembro. Isso é um facto, não sabia qual era a área, porque eu gostava de áreas muito diferentes. Depois, no secundário, consegui ter assim uma paixão mais evidente pela biologia, especialmente na área da genética. Lembro-me que gostei muito das Ervilhas de Mendel e da hereditariedade. Pretendia algo relacionado com a biologia apesar de também gostar imenso de química. Mas depois o meu interesse foi evoluindo mais para a área das ciências Biomédicas. A Neurociência surgiu um bocadinho mais tarde, já no curso superior. Portanto, eu ingressei em Biologia Aplicada na Universidade do Minho porque era um curso direcionado para investigação e eu gostava de fazer investigação no laboratório. Ao longo do curso fui me apercebendo que a neurociência era realmente uma das áreas que me fascinava. E decidi fazer o estágio final nessa área para estudar uma doença neurodegenerativa num modelo muito simples, o nemátode. Fui fazer esse estágio à Holanda e a partir daí percebi que era na área das ciências que eu iria continuar a minha carreira.

Durante esse percurso sentiu algum preconceito face ao facto de ser mulher no mundo da ciência, previamente dominado pelos homens?

Eu nunca senti preconceito a título pessoal, mas existem desigualdades de género. Existe um relatório da Comissão Europeia de 2018 (“Chief figures”) promovido pelo engenheiro Carlos Moedas. E basicamente, esse estudo demonstra que existem desigualdades evidentes. Há mais precariedade no sexo feminino, os salários são ligeiramente mais baixos, há menos mulheres em cargos de decisão e em cargos académicos superiores, também ainda existe, em alguns países da Europa, menos mulheres a entrarem nas tais áreas STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics). Em Portugal é uma exceção, curiosamente, porque 60% dos estudantes são do sexo feminino. Mas o que acontece em Portugal é que, apesar de haver muitas mulheres no início da carreira, ao longo da carreira, esse número vai invertendo e são os homens que lideram as hierarquias e os cargos de decisão superior. E, portanto, existem, ainda hoje, diferenças entre homens e mulheres, na Europa, ou seja, países desenvolvidos. Muitas vezes existe também aquela conceção que para se ser um profissional de excelência, não se pode ser igualmente uma mãe de excelência. E isso é algo que nós temos que desconstruir, porque é possível. E eu acho que sou um desses exemplos, sou mãe e tento manter qualidade de vida com a minha filha sem prejudicar a minha profissão, porque também é uma parte de mim e também é importante para mim sentir-me realizada naquilo que faço.

Acha que esse aspeto tem vindo a melhorar desde o início da sua carreira?

Sim, tem vindo a melhorar e, cada vez mais, há evidências disso em Portugal. Acho que essa desigualdade é mais evidente noutros países. Em Portugal já temos muitas diretoras de centro, professoras catedráticas, portanto, isso seguramente está a mudar, mas ainda acredito que ainda temos espaço para melhorar mesmo em Portugal.  

Relativamente ao facto de ser recompensada, sente que o seu trabalho sendo mulher é tão recompensado como os colegas do sexo oposto?

Sim. Na academia nunca senti que o meu trabalho fosse olhado de forma diferente por eu ser mulher. Existem alguns estudos científicos, a mostrarem que a perceção de uma mulher a dar, por exemplo, seminário, a fazer exposição do seu trabalho, é diferente da exposição de um homem, e há alguns adjetivos que são usados para caracterizar os líderes masculinos, que são diferentes para caracterizar os líderes femininos. Mas acho que isso está a mudar, já temos muitas mulheres a ocupar cargos importantes, e mais que importantes é serem reconhecidas internacionalmente pela sua excelência. E, portanto, mais uma vez só nos cabe a nós desconstruir alguns desses estigmas associados à presença das mulheres na ciência. Não é um obstáculo ser do sexo feminino nunca, é curioso porque eu acredito que muitas características tipicamente associadas ao sexo feminino são consideradas como fragilidades eu penso que são exatamente o oposto. É muito importante incluir homens e mulheres na mesma equipa de liderança, porque são complementares as perspetivas e as formas de lidar com os problemas, e isso só pode trazer riqueza a uma organização. Eu acho que é preciso encarar as diferenças entre géneros como valências que podem ser aproveitadas em prol de um bem maior e não necessariamente como fragilidades. Equipas mistas tipicamente funcionam muito melhor, porque há uma complementaridade, há diferenças de personalidades que ajudam a que haja um equilíbrio, uma maior harmonia.

A sua profissão supera as suas expectativas, ou seja, é aquilo que estava à espera? Sente-se feliz no que faz?

Eu sempre quis ser cientista e eu adoro o que faço, não me vejo a fazer outra coisa, gosto mesmo muito, vou muito entusiasmada para o trabalho, sou completamente apaixonada pela minha profissão e por isso tenho que dizer que superou e igualou as minhas expectativas, uma vez que eu achava que ia gostar imenso daquilo que ia fazer e realmente isso está a acontecer e, portanto, sinto-me mesmo muito feliz.

“A ciência é demasiado complexa para fazermos previsões…”

Quais são os maiores desafios que enfrenta na sua profissão?

As maiores dificuldades, são as experiências que nem sempre funcionam bem por qualquer motivo, tentar resolver os problemas, gerir a equipa, as expectativas e frustrações é algo também muito desafiante para quem tem uma equipa a trabalhar connosco. A título pessoal, é a incerteza do futuro, que tive durante algum tempo, porque a ciência em Portugal ainda é feita de muitos altos e baixos e nem sempre sabemos o que vamos ter no ano seguinte, isso do ponto de vista de candidaturas, por vezes, não é muito fácil de lidar.

Professora e Investigadora na Escola de Medicina da Universidade do Minho

Em relação ao futuro, alguma expectativa? Algum projeto em mente?

A ciência é demasiado complexa para nós fazermos previsões daquilo que vai acontecer no ponto de vista de resultados e do que esperar. Posso dizer que acho que vou continuar nesta área de prazer e aversão durante uns largos anos até porque ainda há muitas perguntas que tenho na minha cabeça e muitas vezes surgem novas questões conforme os resultados que vamos tendo durante o percurso. Tenho muitos projetos na minha mente e se fosse preciso escrever agora uma nova candidatura já sabia o que haveria de escrever, mas também estou sempre aberta àquilo que os resultados do laboratório vão trazer e acho muito importante esse espírito aberto para o que vem de novo e o facto de não ter nada muito pré-definido na nossa cabeça, porque muitas vezes aquilo que nós achamos que é a hipótese correta, na verdade não é.

 QUIZZ “120 SEGUNDOS”

Ana João Rodrigues

Quais as características que mais valoriza nas pessoas?

Paixão, dedicação, integridade e empatia.

Que talento gostaria de ter e não tem?

Música. Sou terrível… Não sei cantar, sou péssima! Gostava de saber.

Tem algum passatempo para além do seu trabalho diário? Se sim, qual?

Viajar e conhecer novas culturas. Também gosto de ir a espetáculos culturais (teatro, dança) e gosto muito de comer, experimentar restaurantes novos e cozinhar comidas diferentes!

Qual a sua maior fobia?

Não tenho fobias.

Qual é a função que mais a aborrece na sua profissão?

A parte burocrática, ou seja, ter que justificar algo só porque sim e não ver nenhum objetivo concreto naquela justificação. Portanto a burocracia tira-me do sério, e há muita!

O que mudaria em si?

Às vezes sou impaciente e impulsiva. Talvez frenar um pouco a minha impaciência.

Qual a pessoa em quem mais confia?

São três. Os meus pais e o meu irmão.

Defina-se numa palavra.

Feliz.

O que é, para si, ser mulher? É poder, no sentido literal da palavra, é sentir, olhar e ver mais do que só com os olhos

Esta entrevista foi realizada por Ana Ferreira, Catarina Faria, Vitória Sampaio, Francisca Soares e Inês Pinto, alunas da Escola Básica e Secundária de Idães (12ºA), no âmbito da disciplina de Química. Teve como objetivo a publicação e divulgação, no dia internacional da mulher, de algo à nossa escolha nas redes sociais e nos media, como forma de homenagem ao contributo das mulheres para a ciência. Como tal decidimos entrevistar duas cientistas: Ana João Rodrigues, neurocientista na Universidade do MInho que adquiriu uma bolsa multimilionária e Catarina Alves de Oliveira, astrónoma na Agência Espacial Europeia que contribuiu para o lançamento do telescópio espacial James Webb.

As autoras da entrevista