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Daniela Melo: Uma Felgueirense nos EUA

Daniela Melo é professora de Ciências Sociais, Doutorada em
Ciência Política. Trabalha na Universidade de Boston (Boston
University) que é a maior Universidade privada da Nova Inglaterra,
bem no centro de Boston. Vive em New Bedford em Massachusetts
onde está uma grande comunidade portuguesa. “Não vim aqui parar
por causa disso, mas gosto de estar neste meio porque ouço
portugueses, todos os dias”, revelou à nossa redação.
Leia a entrevista de uma felgueirense que emigrou nos anos 90
com a sua família e acabou por se estabelecer nos EUA como um
exemplo de sucesso. Criadora do grupo “Sabes que és felgueirense,
quando…”, evidenciou que se tornou uma forma de se sentir perto
da cidade que a viu crescer.

Está a viver nos EUA há quantos anos?
Cheguei aos EUA em 1998. Portanto, estou cá há 22 anos. Nem dá para acreditar. Vim com os meus pais. Nós emigramos, tinha eu acabado de completar 17 anos. A minha família já tinha uma ligação aos EUA há várias décadas e surgiu uma oportunidade. Os meus pais tinham feito uma candidatura nos anos 80, entretanto não pensaram no assunto. Em 1997 receberam um envelope a dizer que tinham um ano para decidir. “O vosso ano é agora”, recordo. Foi uma decisão difícil, mas os meus pais tentaram e vieram com cinco filhos
para os EUA. Sou a filha mais velha e tenho dois irmãos com idades aproximadas. Andávamos na Escola Secundária de Felgueiras. Tinha mais duas irmãs, uma com três anos
e uma com dez meses. Dois bebés, basicamente, e três adolescentes.

Como foi essa mudança de vida?

Foi um choque muito grande, naquela altura. Não nos mudamos para um país onde se falava o português, embora os meus pais, falassem alguma coisa. No meu caso eu falava aquele inglês de liceu. Foi um grande choque nas nossas vidas.

Onde residia em Felgueiras?
Eu cresci em Lagares e foi lá que vivi quase toda a minha vida, em Portugal. Mas também vivi em Margaride, na rua de Padroso. É onde os meus pais ainda têm a casa, em Portugal
e onde a minha avó vive. Mas considero-me de Lagares, uma vez que foi onde cresci e onde tenho todas as minhas memórias de infância.

Acompanha com regularidade o que se passa na cidade de Felgueiras, apesar de estar nos EUA?

Deixei Portugal com 17 anos, ou seja, deixei muitos amigos, já tinha um Network estabelecido. Deixei também família, como os meus primos, por exemplo… Tinha os meus avós, apesar de atualmente só ter presente a minha avó, tinha os quatro e este ano foi a primeira vez, nos últimos vinte anos que não consegui ir a Portugal. Obviamente que nunca passo por Portugal, sem ir a Felgueiras. Seria impensável… Felgueiras é a minha terra de referência. Tenho muito orgulho em ser felgueirense. Digo-o de boca cheia e sempre o disse. Tenho mesmo muito orgulho no empreendedorismo e na capacidade dos felgueirenses terem dado um salto muito grande nas suas vidas. Penso que sofremos um bocadinho com a nossa reputação e desde aí, Felgueiras tem tentado provar ao resto do país de que valemos a pena e que somos um povo trabalhador… Sempre senti isso muito profundamente. Há uns anos atrás, quando chegava a Lisboa, só me falavam do saco azul. Estava farta disso. E já questionava as pessoas: “sabes o que é que os felgueirenses fizeram com a quarta classe?”. Deixei muitos elos de ligação… Agora tenho uma criança e não consigo ir tão frequentemente. Mas ia cerca de duas a três vezes por ano. Realço a gastronomia (risos). Qualquer pessoa que esteja emigrada sabe do que falo. A primeira coisa que fazemos quando chegamos a Portugal é fazer uma lista do que vamos comer.

O grupo ‘Sabes que és felgueirense’ foi criado por si. Foi uma forma de se sentir
perto do que acontece na cidade?

Nos últimos dois anos não me tenho dedicado muito ao grupo. Do ponto de vista familiar e profissional, a minha vida tornou-se muito mais complexa. Comecei o ‘Sabes que és
felgueirense’, quase como um projeto saudosista. Estava a começara a escrever a minha tese de Doutoramento e então passava horas seguidas no computador. O objetivo era que
as pessoas partilhassem matéria que nos caraterizasse como felgueirenses. Foi muito giro no primeiro ano, porque as pessoas aderiram. Obviamente que à medida que o grupo foi
crescendo, foi difícil, cada vez mais, gerir os comentários… Entretanto terminei o Doutoramento e entrei no mercado de trabalho muito a sério. Deixei de poder estar ali tão assiduamente. Mas teve momentos muito bons, porque foi um espaço para
as pessoas falarem de muita coisa.

É o grupo com o maior número de elementos, em Felgueiras…
Sim, e a lista de espera continua enorme porque infelizmente não consigo acompanhar. Mas é o meu desejo, logo que as coisas abrandem, tentar uma nova aproximação. O que
se nota é que sempre que há algum tema, mais de interesse publico, há muitas discussões… aproximou-me muito de Felgueiras, ao longo destes anos. Vou sentindo o pulso da cidade. As pessoas, nas redes sociais, sentem-se mais livres para falar do que se estivessem em público.

Muitos dos temas debatidos nestes grupos são de teor político, ou seja, a política também se faz nas redes sociais? Será uma tendência, ou vai passar?
Isto não vai passar… as redes sociais têm sido muito problemáticas e apanharam toda a gente de surpresa, nos últimos anos, porque se recuarmos aos anos 90, cientistas políticos estavam a escrever sobre as novas tecnologias e os computadores e parecia tudo muito “bonito e florido”. A internet ia criar a aldeia global, ia haver menos racismo, porque nos íamos entender mais uns aos outros. Era um discurso muito popular na ciência política. Percebemos que as redes sociais estão a fazer precisamente o oposto. Ou seja, estão a dividir-nos cada vez mais. Em vez de termos mais diálogo entre as várias fações, estão a criar extremos permitindo às pessoas criar bolhas de informação ou de desinformação.

As pessoas estão mais ou menos informadas nos dias atuais, na sua opinião pessoal com base na sua experiência profissional?
O que vemos, do lado académico é que é uma avalanche de informação e as pessoas não têm as ferramentas para distinguirem a boa informação da má informação. Ter muita informação, nem sempre é benéfico, se não a sabemos gerir. Com as redes sociais as pessoas aderem cada vez mais a informação que se possa ler ou perceber rápido. A adaptação tem sido muito difícil para todos, inclusive para os jornais. As redes sociais
apresentaram um problema à democracia. Há 15 anos ninguém previa, por exemplo, no Brasil as pessoas lerem mensagens no WhatsApp a dizer que as vacinas é que estão a criar o Zika e recusarem-se a tomar. Estamos a falar de problemas muito sérios, causados
pelas redes sociais e pela dificuldade das pessoas em perceber qual é a verdadeira informação. E com os populismos ainda pior, é o caso do Trump e do Bolsonaro, que atacam constantemente a informação. Ninguém sabe em quem acreditar.

Não é possível parar este fenómeno da desinformação nas redes sociais? Como é que isto vai acabar?
O que eu vejo na Europa, mais até que nos EUA é muita movimentação em termos legais, sobre questões de privacidade, das redes sociais. Estamos a correr para ver se conseguimos apanhar a “onda” que nos fugiu. Penso que nos próximos anos vamos ver muita legislação sobre as redes sociais. O Facebook também tem uma certa responsabilidade legal sobre a informação. Considero que a chave não está na legislação, mas na educação. É importante que esta geração e as seguintes, promovam campanhas
de informação, sobre como utilizar redes sociais. Sobretudo para as camadas mais idosas. Assisti na minha família e no meu círculo de amigos à ideia de que “se estava na televisão é verdade e se está no Facebook, também deve ser verdade”. Isso tem que passar pelas escolas, haver literacia nas redes sociais. Tem que passar por um esforço muito grande, para que isto não continue a acontecer nas próximas gerações.

Os mais novos já não leem tanto. É cada vez mais difícil captar leitores. Até quando é que a Comunicação Social vai aguentar?
Um jornal como o Semanário de Felgueiras que é um jornal local, pode desempenhar um papel importantíssimo, na literacia do que se passa realmente na cidade e nos órgãos de
poder da cidade. Desde a agricultura às fábricas, aos vários setores da economia. É importante um jornal de referência e que as pessoas tenham confiança. Mas neste momento há pouca confiança, na comunicação social em geral. Não sei exatamente
como se pode ganhar os novos leitores, mas sei que tem que passar pelas redes socias. Talvez apostar em coisas que não custam muito dinheiro, mas que podem trazer bons resultados. Podcasts, pequenos vídeos… em vez de fazer só uma entrevista em papel, fazer também em vídeo, porque é assim que as pessoas digerem a informação, neste momento.

A concentração de poderes, por parte de grandes empresas, uma espécie de
monopólio, da Google, redes sociais, etc, é um tema que está na ordem do
dia. Isso está a ser debatido nos EUA?

Os EUA têm tendência a legislar muito pouco. A União Europeia está mais à frente no que diz respeito à legislação sobre redes sociais, preservação de dados pessoais, etc. A França,
aliás, foi o primeiro país na Europa a criar legislação sobre isto. Se pensarmos bem, é assustador que estas companhias tenham tanta informação pessoal sobre as pessoas. Estamos a confiar que estas corporações têm boas intenções, mas o que é que poderá acontecer se não tiverem? E se um dia pegarem nessa informação e tentarem manipular um Governo ou um Chefe de Estado? Na verdade, estamos a ceder muito poder sobre nós e as nossas democracias a essas corporações. É necessário que haja verificação sobre como é que os dados estão a ser utilizados e como a informação das pessoas está a ser vendida e a quem. Parece-me que isso é inevitável, menos nos Estados Unidos.

Conte-nos: como foi a sua história de vida?
Quando estava a fazer o Doutoramento, que aqui é muito diferente da Europa, tive muito tempo para pensar sobre qual seria o tema da minha tese. Escolhi o tema sobre os
movimentos feministas em Portugal. Sempre me senti feminista, mesmo quando não sabia o que era o feminismo. Cresci em Felgueiras, no seio de uma família tradicional e os meus
avós eram agricultores. Dos quatro avós, apenas um sabia ler e escrever e os meus pais só tiveram a escolaridade mínima. Sempre olhei para a Revolução de 1974 com a ideia de que se ela não tivesse acontecido, a minha vida como mulher teria sido dramaticamente diferente. Crescendo em Felgueiras nos anos 80, no rescaldo da Revolução, sempre senti que havia regras para mim e regras para os meus irmãos. Escrever a minha tese foi regressar a Portugal anos depois de estar nos Estados Unidos e repensar se estes movimentos também existiram em Portugal. Quando percebi que sim, decidi escrever sobre
o movimento feminista em Portugal. Isto para dizer que sempre fui uma pessoa que sempre gostou de estudar. Sempre adorei a escola. A minha professora na Escola Primária,
a Professora Romi, de quem tenho ótimas memórias, cedo percebeu que eu adorava a escola. Eu adormecia agarrada à mochila a pensar que no dia seguinte ia regressar à escola que tanto gostava! A emigração é muito dura. Os primeiros dois anos, de transição, num país diferente é muito difícil. Nos EUA, por exemplo, a opção passa por dizer aos filhos que não podem estudar, têm de ajudar na economia da casa. Por isso, tenho de me sentir muito grata porque os meus pais sempre me proporcionaram que estudasse. Estou grata aos meus pais pelo esforço que fizeram para que eu e os meus irmãos pudéssemos estudar. Isso facilitou a integração nos EUA e a carreira, tanto a minha como a dos meus irmãos. Tenho família emigrada nos EUA e no Luxemburgo. Da parte da minha mãe, todos os irmãos estão emigrados. Dos sete irmãos, nenhum vive em Portugal.

Uma história de família ligada à emigração…
Sim, tudo começou na década de 60, com um irmão da minha avó, a D. Amélia, que vive em Padroso. Este meu tio-avô, casou-se com uma açoriana, nascida na Califórnia. Ele fez
o serviço militar nos Açores, arranjou namorada, regressou ao Continente, mas sempre com a ideia se casar com ela. Foi o que aconteceu. Passaram algum tempo nos Açores e decidiram ir para os EUA. Ficou conhecido como o Tio Americano (risos). Por isso, temos um elo aos Estados Unidos desde essa altura e para sempre. Nos anos 80, quando era mais fácil fazer a papelada para a emigração nos EUA, era o Ronald Reagan presidente, essa minha tia fez os papéis para os irmãos. Só não foi quem não quis. A maioria da família
emigrou mais recentemente nos anos 90, como foi o meu caso. Quase toda a minha família está concentrada em New England, para onde esse meu tio-avô veio nos anos 60. Estamos
todos pertinho uns dos outros.

É fácil viver nos EUA?
Nem sempre. Os EUA são um país difícil para a adaptação. É difícil ser emigrante em qualquer parte do mundo, mas os Estados Unidos é um país muito duro. Por exemplo no que diz respeito à saúde, não há seguro de saúde nacional, isto é, se uma pessoa perder o emprego perde o acesso à saúde. Ou seja, tem acesso a preços astronómicos. É comum se uma pessoa adoecer perder tudo o que tem. Se alguém precisar de uma cirurgia e ficar 15 dias no hospital pode receber uma conta de 150 mil dólares. Para dar um exemplo concreto: fui mãe há dois anos, por estar no Hospital duas noites e três dias, ter feito um parto normal, sem complicações, vi a conta que foi mandada à companhia de seguros de quase 35 mil dólares. Isto é para terem uma ideia de como as coisas são. Estes são os preços básicos da saúde nos EUA. Quem tiver trabalhos bons, está bem, quem não tem, é crítico. Os EUA são um país onde se pode começar do zero e chegar longe, mas também tem muitos obstáculos.

Daniela e o filho Sebastian

Mantém a máxima do “sonho americano”?
Acho que mudou. Nos anos 60, era mais fácil agarrá-lo. Hoje, é mais difícil, até porque a economia também não ajuda. Como posso explicar isto? Em Portugal é difícil livrar-nos da nossa bagagem pessoal e começar do zero, aqui isto não é tão verdade. Em Portugal, somos julgados pela classe social, pela família a que pertencemos, etc. Nos EUA, ninguém quer saber de onde venho ou quem sou. Nos EUA, a pessoa mostrando provas, avança. Se não mostrar, não avança. Não é uma meritocracia completa, mas quase. A pessoa pode começar do zero e crescer.

Em Portugal temos acesso gratuito à saúde. Nos EUA, não. Os americanos sabem que os portugueses têm um Serviço Nacional de Saúde gratuito?
Eu digo isto muitas vezes aos meus alunos e eles ficam de boca aberta. Mas não é só na saúde, também é na educação. Aqui, para andar na universidade privada os alunos têm de pagar 70 mil dólares. Se não tiverem o dinheiro disponível, fazem um empréstimo e andam muitos anos a pagar. Em qualquer Estado dos EUA, o ensino público custa entre 15 e 25 mil dólares, sem contabilizar os custos com o alojamento. Existe um contraste muito grande entre o ensino público e privado. Ao contrário do que acontece em Portugal, aqui, nos EUA, o privado tem melhor reputação.

Curiosamente, na campanha eleitoral das Presidenciais norte-americanas, falou-se de saúde e economia em tempo de pandemia…
A Covid-19 veio agravar a polarização de uma maneira quase absurda. Se uma pessoa anda sem máscara é apoiante de Trump. Se usa máscara apoia Biden. É esta a realidade. Trump tem a retórica simplista da Guerra Fria que tudo o que seja serviço público é comunista. Portanto, Trump acha que Biden é comunista. De facto, estes dois assuntos marcaram o debate para as eleições Presidenciais. Nos debates na televisão, ninguém percebeu nada sobre as propostas dos dois candidatos, embora no segundo debate já tenha havido uma melhoria na perceção das coisas. No entanto, esta eleição é um referendo à presidência de um presidente populista. Quem vai votar não é porque Biden vai fazer uma política de saúde diferente de Trump. Não. É um referendo ao mandato de Trump. Obviamente que as bandeiras da esquerda são muito importantes, mas nos EUA não há um sistema multipartidário, por isso quando se fala na esquerda americana
é falar de toda a gente. É um PS, PCP e do Bloco, todos juntos. É uma coligação instável (risos). Um progressista nos EUA é um radical. O discurso político está muito radicalizado. A população está tensa, extremamente tensa, como em nunca vi. Não há diálogo com o outro lado, há uma fissura enorme em que um dos lados olha para o outro e diz que tem pontos de vista incompatíveis.

Há algum perigo de essa tensão resultar em cenários de violência? Numa
espécie de guerra civil?

Não, não digo isso. Mas a população está armada. Nos EUA este ano bateu-se o recorde de vendas de armas. O ambiente é tenso sobretudo nas grandes zonas urbanas. Há a possibilidade de haver confrontos com milicianos. Aliás, os EUA sempre tiveram problemas com grupos milicianos neonazis. O FBI indica que a maior ameaça terrorista nos EUA são estes grupos. O problema é que a ação de Trump legitimou estes grupos sobretudo desde o Verão quando se deu a morte de George Floyd, o homem negro morto pela polícia. Se houver protestos na rua, eles vão ao encontro de grupos milicianos que vão defender a República. Estes grupos andam há meses a dizer que vai haver um golpe contra Trump por parte da esquerda e que eles vão ser a última linha de defesa. Esta narrativa é muito perigosa. No Michigan tentaram raptar a Governadora e queriam invadir a “Casa Branca” estadual e já houve problemas graves por causa dos protestos antirracistas nas ruas. Acho que vamos ter focos de violência se Trump não se moderar. Não querendo ser alarmistas, esta é a realidade. Há 10 anos isto era impensável. No fundo, nunca pensamos que
esta democracia fosse tão vulnerável, como esta eleição mostrou que é.

Daniela vive em New Bedford, no Massachusetts

Nos EUA qualquer cidadão pode andar armado?
Nenhum Estado pode aprovar uma lei que não permita o uso do porte de arma. O que cada Estado faz é regulamentar quem tem acesso às armas e onde quando e como as pode utilizar. O que vemos nos filmes, com as pessoas com a arma em cima da mesa de cabeceira, é só em alguns Estados. No Massachusetts, só pode andar armado quem tiver licença emitida pela Polícia. Anda muita gente armada mesmo em Massachusetts. A minha mãe tem a sua própria loja e não tem arma, mas muitos vizinhos têm. É uma sociedade de cowboys, a mentalidade do Farwest continua muito viva na sociedade americana.

Qual é a sua visão do mundo? Há falta de referências na política?
As pessoas mostram-se descrentes em relação aos políticos, há falta de liderança… Acho que temos de investir na educação cívica. Saí de Portugal, com o 11º ano e sem estudar a Revolução Portuguesa. Isto é chocante, olhando para isto como adulta. Sei que faz parte da matéria do 12º ano, mas só no fim. Isto é devastador. A democracia não assenta só nas instituições. Também assenta na participação cívica e na confiança dos eleitores de que a realmente democracia é a melhor via. Nos EUA e na Europa, estamos a ver uma erosão desta confiança na prática democrática. E com este tipo de líderes ainda é pior. E quando temos uma falta de educação cívica, de saber como era a realidade antes, é grave. Ouvir dizer que quando era o Salazar é que era bom, é uma barbaridade dizer isto para quem conhece o que foi a realidade do país na ditadura salazarista. Temos um caldo de fatores em que as democracias estão sob ataque interno e externo.

Então, estamos a viver um período inquietante da nossa história?
Estamos num período de transição. São sempre momentos perigosos. Quando dou aulas sobre movimentos sociais, obviamente estudamos muito o que se passou nos anos 60, costumo dizer aos meus alunos que eles vão contar aos filhos, o que os pais lhes contaram a eles sobre os anos 60. Esta última década será para eles o que os anos 60 foram para os pais e avós deles. É uma época de grandes tumultos e convulsões a nível internacional. Começamos com a grande recessão, depois veio a Primavera Árabe, e agora estamos a ver com a chegada de Trump ao poder, estamos a ver o retorno a um mundo multipolar. Os EUA já não são hegemónicos. Só são em número de armas. Mas, isso não chega. Os EUA tinham todas as armas do mundo, mas não conseguiram ganhar a guerra do Iraque, no Afeganistão ou do Vietnam, nos anos 70. E não é o número de armas que vai ganhar guerras no futuro. Com Trump, os EUA deram muito espaço à China e à Rússia para se tornarem mais assertivos como superpotências. Isto para dizer que estamos a viver um momento muito instável, numa década de muita instabilidade, de reorganização do panorama internacional que levou à onda do populismo. Espero que daqui a cinco anos, o pó já tenha assentado e que já estejamos numa nova era que continue a ser democrática.
Acredito muito na democracia.

O que é melhor para os EUA e para o mundo: a eleição de Biden ou a reeleição de Trump?
O cenário melhor para a estabilidade é a eleição de Biden.

Acha que todos deveríamos um dia ter a experiência de emigrar?
Não desejo a ninguém as dificuldades que uma pessoa vive quando emigra. O processo de sair da nossa área de conforto, da nossa bolha, de experimentarmos algo diferente, de sermos a pessoa que está de fora, a tentar entrar, é de autoavaliação constante. É o primeiro confronto a sério que temos com aquilo que temos dado como adquirido. A emigração força muito isto. Não acho que seja obrigatória, por assim dizer, a emigração para vivenciarmos isto. Fazer um Erasmus, num país com uma cultura diferente, com uma língua diferente, uma religião diferente, pode dar uma visão mais ampla, uma experiência enriquecedora. De facto, qualquer pessoa que passe pela emigração passa por um processo de dificuldade. Tenho a experiência dos meus pais, que emigraram com 30 e muitos anos
e com filhos para os EUA. A mudança foi absolutamente radical. Vivem numa comunidade multiétnica, num mundo de muitas línguas. A minha mãe tanto fala inglês, como espanhol, depende de quem entra pela porta da loja. Os seus horizontes tornaram-se mais amplos, apesar de não estarem tão assimilados à América como eu e os meus irmãos. Ter uma experiência fora da nossa zona de conforto é um processo de crescimento magnifico que nos torna mais cosmopolitas, bem preparados para o mundo e calejados para os desafios do futuro. Mas, entendo que a emigração não é o único processo de se conseguir isto.

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