“Temos de ver as obras que estão em curso terminadas de uma vez por todas” – critica ainda
No encerramento da ronda de entrevistas com as forças políticas representadas na Assembleia Municipal de Felgueiras, o presidente António Faria fez um balanço do mandato e da liderança dos trabalhos.
Eleito em 2025 pela coligação “Sim Acredita” (Livre/PS), Faria recebeu a reportagem na sala de sessões — espaço que descreve como “a casa de todos os felgueirenses” — para abordar o equilíbrio democrático, a revisão do regimento em curso e as lacunas estruturais que afetam o concelho e a região.
O papel de presidente e o equilíbrio político
Questionado sobre a liderança de uma das assembleias mais desequilibradas na região em termos de forças representadas, António Faria destaca que a experiência tem sido “fantástica e nova”, frisando que tem “conduzido com muito gosto” e “aprendido muito”.
O presidente fez questão de sublinhar que o seu papel “exige total isenção”, despindo as amarras partidárias da coligação que o elegeu:
“Eu aqui dispo o papel de eleito pelo ‘Sim Acredita’, porque sou o presidente de todos os felgueirenses, e assim quero continuar até ao final do meu mandato. Temos tido aqui um papel interessante de colaboração entre todas as forças políticas, de discussão política. Tem-se discutido política nas assembleias municipais.”
Faria elogiou o funcionamento da comissão permanente do órgão, realçando o ambiente de “companheirismo e de ajuda entre todos”.
No entanto, deixou um aviso claro sobre os limites do debate: “Disse, e aquilo que lhes pedi foi que houvesse respeito para com os deputados e com o executivo municipal. Se entrassem por um caminho de afronta política e pessoal, eu seria o primeiro a cortar essa intervenção.”
Revisão do Regimento: O fim das sessões pela madrugada dentro?
Um dos pontos mais práticos da gestão de António Faria relaciona-se com a revisão do regimento da Assembleia Municipal, um processo que conta com contributos de todas as forças políticas: PSD, CDS, Chega, PS e Livre. A grande prioridade é a gestão dos tempos de intervenção, de forma a salvaguardar a eficácia dos trabalhos e a saúde dos deputados, após sessões recentes que terminaram perto das 03:30 da madrugada.
António Faria explicou que, independentemente do novo regimento entrar em vigor, já existe um compromisso com o presidente da Câmara Municipal para travar maratonas noturnas:
“Ficou acautelado e concertado com o senhor presidente da Câmara Municipal que, por volta da meia-noite, se o presidente da Assembleia entender que faltam um ou dois pontos para acabar e que até à meia-noite e meia, uma da manhã pode terminar, prolongaremos. Se não, interromperemos os trabalhos e continuam no dia seguinte.”
O autarca aproveitou para lançar uma reflexão sobre a orgânica das autarquias no país, defendendo que a Assembleia Municipal deveria ter maior independência financeira face à Câmara:
“Seria muito importante que, em vez de passarmos de cinco assembleias municipais — e eu propus isso até na Associação Nacional de Assembleias Municipais —, em vez de haver cinco sessões por ano, pudessem ser pelo menos sete. Porque sendo só cinco, acumulam-se muitos assuntos. (…) E a Assembleia Municipal deveria ter um orçamento próprio, e não um orçamento que depende do executivo municipal. Qualquer alteração ou despesa, ou formação, que algum deputado pretenda fazer em representação da assembleia, carece da autorização do executivo. Eu acho que as coisas têm de ser postas precisamente ao contrário.”
O Barómetro do ‘streaming’: O que interessa aos felgueirenses?
As transmissões online das sessões, refere, têm servido de barómetro para perceber o envolvimento da população. Analisando os dados obtidos, António Faria traçou o perfil do espetador felgueirense, notando que o interesse do público está muito focado no “período antes da ordem do dia”, onde a discussão partidária assume contornos mais acesos:
“Nas primeiras três, quatro horas, nós chegamos a ter 150 a 160 pessoas a assistir aos trabalhos. Depois, vai diminuindo com o passar das horas, porque também se torna um bocado cansativo. Nota-se que as pessoas assistem um pouco mais àquilo que é o período antes da ordem do dia, mais político, onde há mais discussão acesa entre os grupos políticos, do que propriamente os assuntos de interesse [técnico]”.
Visão regional: as críticas à Linha do Vale de Sousa e aos transportes
Nas considerações finais, António Faria assumiu as suas preocupações enquanto cidadão e deputado intermunicipal. O autarca apontou baterias à excessiva lentidão na concretização de infraestruturas essenciais para o concelho, classificando o avanço da Linha de Caminho de Ferro do Vale de Sousa como “demasiado lento”.
Faria criticou a postura generalizada de desculpabilização face aos atrasos nas obras públicas, alertando para o impacto no encerramento de prazos de fundos comunitários:
“O atraso nas obras condiciona-nos no dia a dia. Temos de ver as obras que estão em curso terminadas de uma vez por todas. (…) Vamos perder seguramente, os municípios todos, muitas oportunidades com aquilo que são até fundos do próprio PRR, que termina no dia 31 de agosto [de 2026]. Eu acho que se o prazo não for prorrogado, o país vai perder muitas oportunidades. E a culpa é um bocado da burocracia, e um bocado de que todos os empreiteiros se agarram sempre ao mesmo objetivo para ir prorrogando a obra: que tivemos mau tempo, as intempéries, os problemas de Leiria que foi necessário socorrer…”
A fechar, o presidente da Assembleia Municipal abordou o dossier dos transportes na Comunidade Intermunicipal do Tâmega e Sousa, exigindo uma resolução célere para as falhas no serviço público do “Linhas”, que penalizam sobretudo as populações mais distantes:
“Nós temos de resolver de uma vez por todas os transportes. A Comunidade Intermunicipal tem-se esforçado, mas neste momento ainda não é uma realidade em nenhum dos concelhos. Ou seja, já existe a linha, mas nós não temos informação rigorosamente de certeza nenhuma dos horários, daquilo que é… Eu acho que é necessário fazer algo mais. (…) Sobretudo os concelhos mais distantes, digamos assim, do centro de alguns dos equipamentos mais importantes do território do Tâmega e Sousa. As pessoas necessitam todos os dias e não têm alternativa nenhuma. Nós aqui em Felgueiras não temos alternativa nenhuma.”
Armindo Mendes




