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Fé, saudade e amor ao futebol: a história de Emília Silva, a peregrina mais idosa no Cortejo das Flores

Reportagem publicada na edição 1499 de 26 de junho de 2026

Todos os anos, no Dia de S. Pedro, as atenções em Felgueiras dividem-se entre a solenidade religiosa e uma figura que se tornou o verdadeiro símbolo vivo desta festividade. Trata-se de Emília Silva, carinhosamente conhecida por todos como “Milinha Morena”, a quem todos batem palamas, à sua passagem…
Aos 87 anos de idade, esta senhora assume com orgulho o título de peregrina mais velha a participar no tradicional cortejo das flores ao Monte de Santa Quitéria.
A sua imagem é marcante: no meio de milhares de pessoas trajadas a rigor, Emília destaca-se ao carregar à cabeça um pesado açafate repleto de flores. Uma promessa e uma tradição que cumpre há 63 anos, para gaudio dos que a veem passar.
A única exceção a esta impressionante marca aconteceu no ano em que o seu marido faleceu. Fora esse período de luto, a sua presença tem sido uma constante inabalável, desafiando a idade e os limites físicos.

Memórias de um tempo passado: As varas de vime e o amor de uma Vida

Conversar com “Milinha Morena” é fazer uma viagem no tempo. De olhar luminoso, com uma memória lúcida, na sua casa, em Santa Luzia, onde nos recebeu, recorda a juventude em Regadas (Fafe), a sua terra natal, e as dinâmicas daquela época. Lembra-se com nostalgia de quando as mulheres subiam o monte carregando os pesados açafates e cestos de flores diretamente sobre a cabeça, um hábito que se perdeu quase por completo.
“As novas agora não vão assim com os açafates à cabeça”, comenta, usando o termo antigo para os cestos. “As pessoas novas agora não alinham bem como a gente de idade”.
Entre as recordações mais bonitas da sua juventude está a tradição das “varas de vime”. No Domingo de Pascoela, as raparigas solteiras deslocavam-se aos montes para apanhar estas varas, limpando-as depois com os dentes. No domingo seguinte, formavam-se grupos de jovens que carregavam os molhos de varas às costas — um molho à frente e outro atrás — num percurso a pé que ia de Regadas até Varziela, onde existia um artesão que fabricava os cestos.
“Vínhamos… era uma borga tão bonita, tão bonito, a pé, de Regadas para Varziela”, recorda com um sorriso de “orelha a orelha”. Foi precisamente num desses dias de festa e trabalho, enquanto dançava, que Emília conheceu o seu marido, a quem descreve como “o homem da minha vida”. Ele, que também gostava muito de dançar, cativou-a num ambiente onde a alegria e a simplicidade imperavam.

A preparação do cesto: das rosas às coroas-de-rei

A envolvência de Emília com o cortejo começa muito antes do Dia de S. Pedro. Antigamente, passava quase uma semana a recolher rosas pelos quintais vizinhos. Contudo, com as alterações no clima, as rosas passaram a murchar ou a escassear logo no início de maio, obrigando-a a adaptar a tradição.
Atualmente, a sua principal aliada é uma sobrinha que reside perto. É ela quem lhe arranja as flores, maioritariamente “coroas-de-rei” ou, em alternativa, “manjericos” grandes, caso as primeiras abram antes do tempo e não aguentem até ao cortejo.
Armazenadas na sua adega caseira subterrânea — um local fresco e ideal para a conservação —, as flores são colocadas em baldes com água. Ali, Emília dedica-se à minuciosa tarefa de lhes retirar todos os espinhos. O motivo? Uma profunda consideração pelos funcionários do município: “Eu tirava-lhes os espinhos para depois os da Câmara não se picarem a pôr as flores no sítio”, aos pés da Santa…
O seu zelo era tanto que o seu genro, impressionado com a quantidade de baldes acumulados, costumava brincar com ela, dizendo que a cada ano que passava ela levava ainda mais flores.

Uma devoção partilhada com a vaidade

Quando questionada sobre o que a move a carregar o cesto após tantas décadas, Emília é de uma honestidade desarmante. Divide a sua motivação entre uma fé inabalável e um orgulho muito próprio. “Não sou nenhuma beata, mas tenho fé. Sei que temos um que nos domina a nós todos, não é?”, comentou, fechando os olhos.
Logo de seguida, acrescenta, entre risos: “Mas também tenho um bocadinho de vaidade por ir com o cesto, tenho de ser franca. Tenho um bocadinho de vaidade de levar o cesto àquilo que as pessoas me batem palmas”.
Durante o trajeto, as manifestações de carinho do público são constantes. Ao ouvir os aplausos e os comentários de admiração pela sua resiliência, Emília liberta as mãos do cesto, acena para a multidão, distribui beijos com as mãos e agradece calorosamente: “Muito obrigados, muito obrigados! Quero-vos ver aqui para o ano outra vez, que o São Pedro nos ajude a estar aqui, e a mim também para eu vir com as flores”.
Devido ao esforço da subida, os próprios romeiros e funcionários ajudam-na por vezes a segurar as pegas do cesto no troço final, entre o cemitério e o cimo do monte.

O lamento pelas tradições perdidas e o confraternizar no monte

Um dos pontos mais emotivos partilhados por Emília diz respeito à perda do espírito comunitário que outrora caracterizava o S. Pedro. Recorda com saudade o tempo do “farnel”, um lanche oferecido pelas Juntas de Freguesia e pela Câmara Municipal aos participantes.
Graças a esse farnel, os peregrinos estendiam as suas mantas e permaneciam no Monte de Santa Quitéria durante toda a tarde, confraternizando. O povo dividia-se pelo monte: uns ficavam nos terraços das freiras, outros deslocavam-se para a zona onde hoje se encontra o lar. “Ficávamos lá toda a tarde… a gente convivia (…) Agora não, já acabou há uns anos. Acaba a missa, a camioneta começa a carregar e a gente vem embora para comer em casa. Fica-se um bocadinho triste, é uma pena”, lamenta.
Sem pressas, mas de verbo fácil, Emília revela um facto curioso sobre a sua saúde: embora sofra de fortes dores ósseas e articulares durante o resto do ano, na semana de S. Pedro sente uma transformação quase milagrosa: “Nessa semana do São Pedro parece que não me dói nada! E durante o ano dói-me tudo. O povo também diz: “Ó Milinha, você naquela semana não lhe dói nada!’”.

O traje tradicional e as “algibeiras” de outros tempos

A atenção ao detalhe estende-se também à indumentária que escolhe para o cortejo, procurando replicar com a máxima fidelidade a roupa que usava na sua juventude. Emília faz questão de vestir saias compridas e pesadas, revelando que uma das saias que guarda com mais carinho pertenceu à sua sogra.
Na parte baixa do avental destaca um pormenor histórico do traje: as antigas “algibeiras”. Trata-se de uma espécie de bolsas atadas à cintura, que as mulheres usavam antigamente para guardar o dinheiro, numa época em que não existiam as malas modernas. “Era onde as pessoas punham ali meia dúzia de tostões ou uma coroa… não havia cêntimos, eram tostões. A gente se quisesse ir a algum lado, o dinheiro ia ali”, contou, sorrindo.

A “Avó do Campo”: uma adepta ferranha do F. C. Lagares

DR ARMINDO MENDES

Longe dos altares e dos cestos de flores, Emília da Silva alimenta outra grande paixão: o futebol. É uma das adeptas mais fervorosas e conhecidas do Futebol Clube de Lagares, o clube da sua terra. Todos os sábados e domingos, marca presença assídua nas bancadas para assistir aos jogos, acompanhando desde as camadas jovens até aos seniores.


A sua ligação ao clube é de tal forma mística que os próprios adeptos e diretores a consideram um amuleto da sorte. “Eu chego lá e eles metem logo golo! As mães dos meninos dizem: ‘Ó Milinha, você já devia de estar aqui, já meteram golo, você devia ter vindo há mais tempo!’”.
A sua generosidade para com os atletas mais novos é amplamente reconhecida. Emília compra do seu próprio bolso rebuçados para distribuir aos rapazes das escolinhas antes e depois dos jogos. Como recompensa, os jovens atletas tratam-na com um carinho imenso, apelidando-a de “A Avó do Campo” ou “A Vozinha”.
Esta ligação ao futebol é também familiar, uma vez que o seu próprio filho foi jogador de futebol do clube, até que uma grave lesão no joelho o obrigou a abandonar os relvados. Um dos maiores orgulhos recentes de Emília foi ver o campo do Lagares receber um relvado sintético. Durante anos, pediu aos presidentes do clube para avançarem com a obra, temendo morrer sem a ver concluída.
“Eu dizia: ‘Isto já nunca mais vai levar o sintético e eu viva, nunca mais’. E foi, graças a Deus, foi. Temos aqui um campo de futebol muito bonito”, disse.

Uma vida cheia de ritmo e cantigas de improviso

Mesmo sem o acompanhamento de uma concertina, Emília não hesita em soltar a voz para partilhar as cantigas antigas e os “improvisos de cabeça” que tanto gosta de criar. Durante a entrevista, fez questão de entoar uma sentida homenagem às mães (a cantiga “Ó minha mãe, minha mãe, ó minha mãe minha amada…”) e, logo de seguida, partilhou uma quadra improvisada onde brinca com a sua própria identidade:

“Gosto muito de cantar, e eu estou velha, tenho pena,
Gosto muito de cantar, e eu estou velha, tenho pena.
Se quiser saber o meu nome, sou a Milinha Morena!”

A sua veia artística e o seu espírito jovem levam-na frequentemente a ser o centro das atenções, até nas excursões para mulheres em que participa, onde não se cansa de cantar. Recorda, divertida, uma ida recente ao Teatro Fonseca Moreira, onde, ao ouvir uma tocata, decidiu subir ao palco por iniciativa própria para dançar, arrancando fortes aplausos e gargalhadas do público presente. Já recebeu inclusive convites para cantar em ranchos folclóricos locais, onde as suas sobrinhas também participam.
Com o S. Pedro à porta, olhando as próprias vestes festivas que trazia vestida para a entrevista, Emília da Silva recusa baixar os braços.
Desafiando as leis do tempo, “Milinha Morena” prepara-se para erguer mais uma vez o seu cesto de flores, caminhando e cantando com a mesma alegria e irreverência que a tornaram uma lenda viva e uma inspiração para toda a comunidade de Felgueiras.

Armindo Mendes

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