Artigo de opinião publicado na edição 1495 de 24 de abril de 2026
De repente uma morte brutal e silenciosa voltou a sair à rua… e, desta feita, num dos campos sintéticos do Grupo Desportivo do Várzea.

Nesse sábado, 11 de Abril, o Alberto Gonçalves, meu amigo e nosso companheiro, desde há muitos anos nas lides de jogar futebol teve um dia normal.
Entre outros afazeres, almoçou normalmente com parte da sua família, principalmente com a sua pequena filha Lara, de dois anos de idade. Ao meio da tarde, recolhido no interior da sua casa ensaiou e tocou mais de meia dúzia de músicas na sua Concertina e às 17H00 horas, como de costume, juntou-se ao nosso “velho” grupo de futebol, do qual ele era o líder, para, como dizia sempre, realizarmos mais um “um jogão” de futebol.
Como sempre, antes do jogo, reparei que ele fez o seu aquecimento habitual e que quando se iniciou o jogo que se encontrava bem.
Durante o jogo, que deveria ser de uma hora, mas só durou 50 minutos, nunca o Alberto deu o mais ténue sinal de que se não encontrava bem, e como era seu apanágio, percorreu constantemente todos os espaços do relvado em permanentes correrias.
E também, como era sua marca enquanto jogador, ele aparecia muitas vezes a atacar pelo lado esquerdo, ou seja, pelo lado direito onde eu em regra me encontro a defender, e as mais das vezes nas minhas costas, fugindo-me sorrateiramente e vezes sem conta em direcção à baliza, onde frequentemente marcava golos.
Foi assim em muitos jogos passados e também no ultimo, sendo que o Alberto tinha uma característica que não era comum nos outros jogadores, pois entre o nosso grupo foi aquele que ao longo dos anos mais golos marcou de calcanhar e que de costas para a baliza, com a ponta da “chuteira” outros golos marcou em formato invulgar.
Do nosso grupo, que já vinha de Santa Quitéria há mais de uma dezena de anos, o Alberto foi sempre um gentleman a jogar futebol.
E também, no seu ultimo jogo, quiçá por a “nossa” defesa ter cometido um erro, o Alberto marcou um golo, desta feita não por minha culpa, mas sim porque do outro lado da defesa alguém se esqueceu de o acompanhar até ao poste do lado esquerdo da baliza, onde ele num ápice apareceu para marcar o seu derradeiro golo!
No fim de marcar o golo, o Alberto, como sempre fazia, correu imediatamente para o meio do campo já pronto para próxima jogada, ao mesmo tempo que festejava o feito realizado. Contudo, ele que não tinha por feitio festejar efusivamente os golos que marcava, tinha nos olhos um sinal de contentamento e no rosto um sorriso maravilhoso. De resto um rosado muito bonito, relevando um composto de cores, quiçá de tulipas, onde o vermelho, o azul o amarelo e o branco sobressaíam.
Nesse momento de felicidade, o Alberto continuava a não dar nenhum sinal do que passados minutos viria a acontecer.
Subitamente, quando eram 18H01 horas, o Alberto, devido a um ataque fulminante, provavelmente de natureza cardio-respiratório, tombou de frente no relvado, não sem antes ter ensaiado uma breve saída do campo – que não chegou a concretizar -, como muitas vezes o fazia, para se ir certificar se já era a hora para terminar o jogo.
Às 18H02 horas, alguns dos nossos jogadores já estavam ao lado do Alberto, uns procurando assisti-lo e outros a telefonarem para os Bombeiros e para o 112 em busca de socorro. Paralelamente outros ainda, gritavam a plenos pulmões por socorro junto dos Dirigente do Várzea, o qual de imediato chegou. Aliás, os serviços de socorro prestados pelos Dirigentes do Várzea, com movimentos adequados no domínio da reanimação, haveriam de se tornar essenciais e decisivos para manter o Alberto tanto tempo vivo. Honras devidas lhes sejam prestadas!
Enquanto uns procuravam abrir e manter a sua boca aberta – e que jamais se fechasse, como não se fechou -, outros fizeram tempo sem conta os movimentos adequados por cima do seu peito, tendo eu próprio, por duas ou três vezes, massajando o seu peito à procura de palpitações que num crescendo mais fraco dentro de si continuavam a permanecer.
Só que, o socorro de que o Alberto precisava tardava por demais e por isso algum desespero começava a tomar conta de nós, incluindo dos Dirigentes do Várzea que por forma diligente, teimosa e empenhada continuavam a prestar assistência.
Pensamos que, às 18H27, hora a que chegou a primeira ambulância, agora com outros meios, ainda fosse possível salvar o Alberto, já que também pensava-mos que o mesmo ainda se encontraria vivo, e que cinco minutos depois, com a chegada de outra ambulância, esta melhor equipada e com uma técnica especializada, seria possível reverter a situação com que nos confrontava-mos. Porém, é apenas uma conjectura que só os resultados da autópsia poderão ou não confirmar.
Todavia, a verdade é que o socorro adequado tardou em chegar, o que sendo lamentável, é também inaceitável.
Contudo, como já o referi no Elogio Fúnebre que o nosso grupo de futebol prestou ao Alberto no dia do funeral em pleno cemitério, não queremos, não podemos nem devemos assacar responsabilidades a quem quer que seja, por não ser possível aferir que o Alberto poderia ser salvo no caso do socorro poder ter sido prestado mais cedo e por forma atempada.
Porém, a partir do momento em que chegou, se o Alberto pudesse ser salvo, o que já se nos afigurava inconcebível antes, o grau de sequelas com que iria ficar seriam muitas e demasiadamente graves, sendo de conceber que nesse quadro a sua qualidade de vida futura iria ser terrível.
O Alberto foi um homem bom! Bom filho, bom irmão, bom marido, bom pai, bom trabalhador e bom amigo, o Alberto foi sempre uma personalidade encantadora, e agora, pela forma silenciosa como morreu, é essa mesma que nos convida e convoca para apreciar a grandeza da sua vida inteira, sobretudo pela classe com que viveu no seu reino familiar, no seu espaço social e na vida profissional.
Sempre bem disposto no terreno das amizades com que se cruzou, entrosou e certificou, o Alberto respirava alegria, e assim, como sempre viveu até ao ultimo dia da sua vida, no dia em que morreu, o Alberto encontrou-se sempre contente até ao momento em que tombou no campo, sendo que não morreu por causa de se encontrar a jogar a bola, mas sim por estar a fazer uma das coisas que em vida tanto gostava de fazer – jogar a bola, numa renovada jornada de fruição de amizade e de prazer.
Sendo que para o Alberto o Apito Final tocou demasiadamente cedo, não lhe dando tempo para acabar o jogo e roubando-lhe para todo o sempre a vida, curvemo-nos respeitosamente perante a sua memória, agarrados perenemente ao maravilhoso sorriso que do seu rosto brotou, quando e enquanto jogador, num formato admirável, o seu derradeiro golo marcou!
“Texto escrito segundo o anterior Acordo Ortográfico“
José Quintela




