Produzido no Douro a partir de mais de 20 castas, Pedro Nunes Ribeiro lançou um vinho tinto, inspirado no avô e na antiga profissão de caixeiro viajante
Numa viagem entre vinhas e memórias de família, nasce um vinho em forma de homenagem. O jovem enólogo e produtor Pedro Nunes Ribeiro reavivou a história do avô, Joaquim de Almeida Nunes, cuja vida e profissão deram nome e identidade à marca.
O vinho “Caixeiro Viajante” tinto nasce no Cima Corgo, uma das sub-regiões mais prestigiadas do Douro. Mas é a história por detrás da garrafa que marca quem o prova.
O nome surge quando Pedro encontrou um antigo cartão de visita do avô com a designação “caixeiro viajante”, profissão que desempenhou após regressar de Luanda, numa época em que estes profissionais percorriam o país de norte a sul a apresentar produtos e a construir relações comerciais. “E foi aí que se deu o clique”, recorda Pedro.
Descrito como alguém sempre bem-disposto e com uma capacidade única de transmitir alegria, o avô tornou-se a principal inspiração do projeto. “Quero que as pessoas pensem no “caixeiro viajante” e em tudo o que me faz pensar. Não há forma de não sorrir ao olhar para o rótulo”, afirma.
Apesar de já trabalhar na área, Pedro admite que não antecipava a exigência do processo. “Desde a data de vindima às decisões enológicas, passando pela escolha da garrafa, rolha ou design, tem dado muito trabalho”, explica. Ainda assim, o balanço é claramente positivo: “Dá um gosto enorme.”



O percurso até aqui foi construído com consistência. Desde cedo interessado pelo mundo do vinho, muito por influência das conversas que ouvia entre o avô e um amigo enólogo, seguiu Engenharia Agronómica na Universidade de Trás-Os-Montes e Alto Douro e especializou-se em Enologia e Viticultura, área em que concluiu mestrado em 2022. Soma ainda formações adicionais e experiências profissionais em Portugal e no estrangeiro, trabalhando atualmente numa empresa de serviços enológicos.
Antes do lançamento do tinto, houve uma tentativa de vinho branco em 2023 que acabou por não chegar ao mercado por não corresponder ao nível pretendido. No entanto, a colheita de 2024 já está engarrafada e novas edições encontram-se em fase de estágio.
O vinho tinto nasce de uvas de mais de 20 castas cultivadas juntas, seguindo uma tradição antiga da região. O vinho mantém características típicas do Douro: fruta vermelha madura, especiarias subtis e acidez equilibrada, resultado de vindima manual, fermentação controlada e estágio em barricas de carvalho francês. O enólogo contou ao Semanário de Felgueiras que o “Caixeiro Viajante” tem, para já, uma presença discreta, estando disponível apenas em alguns pontos selecionados, incluindo o restaurante Verdial, em Rande, e numa garrafeira. A proximidade com quem consome ou quer conhecer o vinho mantém-se, aliás, através das redes sociais do projeto.
Mais do que um vinho, Pedro acredita ter criado uma ligação. “Sinto que muitas pessoas se revêm nesta história, que também as leva aos seus avós. E isso faz toda a diferença.”
O neto Felgueirense, Pedro admitiu que pretende alargar o projeto para além das duas referências durienses e faz parte dos planos a criação de um vinho na região dos Vinhos Verdes. Um próximo capítulo que, à semelhança do “Caixeiro Viajante”, deverá continuar a cruzar território, memória e identidade.
Ana Carolina Dias




