InícioOpiniãoEntre a gala e a lama

Entre a gala e a lama

Artigo de opinião publicado na edição n.º 1492 de 13 de março de 2026

Há notícias que para além do facto em si, revelam algo mais profundo. A interdição provisória do Estádio Senhor do Amparo é uma dessas notícias. Formalmente, trata-se de um relvado degradado, incapaz de drenar o excesso de água e, por isso, sem condições mínimas de segurança. Politicamente, trata-se de algo mais profundo: a demonstração de que os equipamentos desportivos deixaram de ser uma prioridade.
O presidente do Futebol Clube da Lixa foi claro: a interdição “podia ter sido evitada”, a formação “também é afetada” e o estádio “é um equipamento municipal”. Três afirmações simples que expõem três dimensões do problema: falha de prevenção, impacto nos jovens e responsabilidade pública da Câmara Municipal de Felgueiras.
A Lixa é uma cidade, com história, com orgulho, com identidade própria e com um bairrismo que a distingue. O FC Lixa é uma das instituições mais emblemáticas do nosso território e o estádio Senhor do Amparo integra a memória coletiva e património desportivo que moldou gerações. Recorde-se que, em 2017, foi prometido um novo estádio aos lixenses. Entretanto, passaram três eleições e, em vez de um estádio novo, os lixenses têm um estádio interditado. A política vive de promessas, é certo – mas quando elas não se cumprem, não é apenas a obra que falha: é a própria credibilidade de quem a prometeu.
Mas o Senhor do Amparo não é um caso isolado. O Estádio Dr. Machado de Matos apresenta um relvado em más condições e assistiu recentemente à queda de um muro. O campo de treinos do Felgueiras continua a suscitar preocupações. A pista de atletismo da zona desportiva inunda com frequência tem hoje uma bancada “voadora”. Quanto às piscinas municipais, o seu estado é sobejamente conhecido pelos felgueirenses e tem sido amplamente debatido, dispensando novas apresentações. E tudo isto não é um acaso, são sinais de opções políticas do executivo: investir noutras áreas e adiar a manutenção do essencial. E quase sempre adiar o mesmo – os equipamentos desportivos.
Pode argumentar-se que os recursos são limitados. Sempre foram. Governa quem escolhe. O problema não é escolher; é a coerência entre aquilo que se anuncia e aquilo que se executa. Num concelho que celebra anualmente os seus campeões na Gala do Desporto – e bem – seria expectável que o Executivo estivesse ao nível desses mesmos campeões também na qualidade das infraestruturas que suportam os seus sonhos. Não basta aparecer ao lado dos nossos campeões, é preciso é assegurar que têm condições para o ser.
O desporto é formação, disciplina, saúde pública, coesão social e oportunidade para centenas de jovens que encontram nos clubes um espaço de crescimento e pertença. Quando um estádio é interditado, quando uma pista inunda ou quando uma piscina se degrada, não é apenas menos uma infraestrutura que fica condicionada, é toda uma comunidade que vê reduzidas as suas oportunidades. E a mensagem que passa é simples: aquilo que é estruturante pode esperar.

João Lourenço

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