Artigo de opinião publicado na edição n.º 1492 de 13 de março de 2026
As empresas enfrentam, simultaneamente, a pressão da transformação digital e da transição para modelos mais sustentáveis. Para muitas pequenas e médias empresas, estas dinâmicas ainda parecem estar reservadas às grandes organizações. No entanto, é precisamente no tecido empresarial de menor dimensão que reside uma parte importante da capacidade competitiva e de resiliência da economia.
A transição para iniciativas digitais apresenta vários desafios, mas uma estratégia de implementação bem planeada pode revelar-se altamente vantajosa. Têm-se multiplicado as oportunidades de financiamento que permitem investir em tecnologias orientadas para o aumento da eficiência e da agilidade, promovendo mudanças estruturais nas organizações. Todavia, é essencial que a tecnologia não anteceda a estratégia. É recomendável ambicionar em grande, iniciando com passos de menor escala, de forma a assegurar uma transformação sustentada. Isso implica o desenvolvimento de novos processos empresariais, a promoção de uma cultura organizacional orientada para a melhoria contínua e a otimização do próprio processo de transformação. Torna-se, assim, imperativo avaliar a maturidade dos processos, estruturar a transformação e definir indicadores de desempenho que permitam monitorizar a evolução.
Paralelamente, o aumento populacional, o crescimento da procura e a consequente pressão sobre os recursos naturais, bem como a crise energética, têm vindo a sublinhar a necessidade de uma mudança de paradigma nas sociedades modernas. O atual modelo económico linear, no qual os recursos são explorados, transformados, utilizados e posteriormente devolvidos ao ambiente sob a forma de resíduos ou emissões, revela-se insustentável e está na origem de grande parte dos problemas ambientais e sociais. A economia circular vai além da gestão de resíduos e da reciclagem, propondo uma abordagem mais abrangente que inclui o redesenho de processos, produtos e modelos de negócio, bem como a otimização da utilização de recursos. Impõe-se, por isso, investir no desenvolvimento de produtos e serviços que sejam simultaneamente economicamente viáveis e ecologicamente eficientes.
Estas transformações não se concretizam por decreto nem apenas por via tecnológica. Exigem organizações com capacidades robustas de análise, planeamento e adaptação, assentes em recursos humanos qualificados. A formação inicial e contínua constitui um instrumento fundamental para o desenvolvimento de competências de gestão, de literacia digital e de conhecimentos sobre os princípios da sustentabilidade e da economia circular. Não se trata de um fim em si mesmo, mas de uma condição necessária para que a mudança seja consistente e para que as empresas consigam avaliar a sua maturidade, definir prioridades e implementar soluções adequadas à sua realidade.
É, por conseguinte, essencial que cada empresa reflita sobre a forma como utiliza os dados de que dispõe, sobre o desperdício material e imaterial que gera diariamente e sobre as competências de que necessita para aproveitar as oportunidades associadas à digitalização e à economia circular. Quanto mais sólidas forem as capacidades das pessoas que constroem a indústria, mais digital e circular será o seu futuro. É nelas que, inevitavelmente, tudo começa.
Sara Martins Correia




