InícioOpiniãoMarcelo Rebelo de Sousa: o Presidente das selfies

Marcelo Rebelo de Sousa: o Presidente das selfies

Artigo de opinião publicado na edição n.º 1492 de 13 de março de 2026

Terminou o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa e caiu também a obrigação de lhe prestar aquela reverência institucional que o cargo impunha. Agora já se pode dizer sem rodeios: Portugal teve, durante dez anos, um Presidente demasiado preocupado em ser adorado e demasiado pouco empenhado em ser respeitado.
Marcelo quis ser o Presidente da proximidade, dos afetos, das selfies, dos abraços e da presença constante. E conseguiu. Tornou-se omnipresente, comentador de tudo, figura de todas as horas, rosto familiar em cada tragédia, em cada crise e em cada momento mediático. O problema é que um Presidente da República não está lá para ser animador do regime. Está lá para lhe dar peso institucional, reserva, autoridade e sentido de Estado.
Foi precisamente isso que tantas vezes faltou.
Ao longo do mandato, Belém pareceu mais um estúdio de comentário político do que a casa do Chefe de Estado. Marcelo falou demais, apareceu demais, opinou demais. Confundiu influência com vedetismo e proximidade com excesso. Num país cansado de superficialidade, teve muitas vezes o vício da espuma e poucas vezes a densidade da liderança.
Portugal atravessou incêndios, pandemia, crises políticas, instabilidade governativa e sucessivos sobressaltos institucionais. Marcelo esteve sempre visível. Mas estar visível não é o mesmo que estar à altura. Em demasiados momentos, preferiu o aplauso fácil à firmeza exigente. Preferiu ser protagonista quando devia ter sido árbitro.
E quando o Presidente da República troca a autoridade pela popularidade, quem perde é o país e não apenas o cargo. Camões escreveu uma frase que atravessa séculos e continua a servir como luva: “O fraco rei faz fraca a forte gente.” Marcelo não foi rei, mas foi Presidente. E muitas vezes foi um Presidente fraco onde Portugal precisava de força, discrição e elevação.
Ficará para a história como um homem inteligente, culto e brilhante a comunicar. Mas isso não basta para fazer um grande Presidente. Pode até chegar para fazer um Presidente muito popular. Só não chega para fazer um Presidente à altura das exigências de uma Nação.
No fim de contas, Marcelo será lembrado como o Presidente das selfies. E isso, para quem ocupou Belém durante dez anos, está muito longe de ser um elogio.
A história tratará de lhe dar o seu lugar. E talvez esse lugar fique muito abaixo da espuma dos aplausos com que tantos o quiseram proteger.

Jorge Miguel Neves

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