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José Leite: o sapateiro de Felgueiras que dá vida aos sapatos de palhaço (COM VÍDEO)

Em Felgueiras, terra conhecida pela forte ligação à indústria do calçado, há histórias que revelam o lado mais artesanal e singular desta tradição. Uma dessas histórias é a de José Leite, um sapateiro que, ao longo das últimas décadas, se especializou na criação de sapatos — peças únicas, feitas manualmente e que chegam a vários circos.


A origem desta especialidade remonta ao final da década de 1980, numa situação inesperada que acabaria por marcar o rumo do seu trabalho.
Eu em 1989 estava na Póvoa de Lanhoso nas feiras e tinha um par 52 e ao longe comecei a ver um rapaz novo, alto e olhei para os pés e vi que tinha um pé muito grande. A mãe começou a aproximar-se e eu disse “Ó, minha senhora, compre aqui alguma coisinha” e ela disse que se eu tivesse um par para o filho que calçava 52 e eu tinha um e fui dentro carrinha e ele calçou.”
Foi esse encontro inesperado que abriu caminho a uma nova fase da sua atividade. Pouco tempo depois, José Leite começou a dedicar-se à criação de sapatos de grandes dimensões e, em particular, aos utilizados por palhaços de circo, comecei a fazer sapatos de palhaço. Comecei a fazer e até hoje olhe, isto para mim é um orgulho. não me esqueço e às vezes até de noite ainda sonho e penso “tenho de fazer outro modelo diferente, tenho gosto de o fazer”.”
O orgulho naquilo que faz é evidente. Para José Leite, cada par de sapatos representa muito mais do que um simples produto: é o resultado de criatividade, dedicação e experiência acumulada ao longo dos anos, “Comecei a fazer, comecei e depois ter conhecimento com os circos depois comecei a levar o meu contacto.”
Com o tempo, o seu trabalho foi sendo conhecido no meio circense. Através de contactos e recomendações, o sapateiro passou a fornecer calçado para diferentes artistas, mantendo sempre o mesmo cuidado e atenção ao detalhe.
Ao contrário do que acontece na produção industrial, o trabalho de José Leite continua a ser essencialmente artesanal. Cada sapato é feito manualmente e exige tempo, paciência e precisão, “O sapato demora não demora horas, demora dias a fazer um sapato e eu só consigo fazer dois pares por semana porque isto é tudo manual. Eu sou o que faço, a sola só tenho uma gaspeadeira que é minha sobrinha, que os gaspeia, o resto é tudo feito por mim”, explica o sapateiro.
O processo é demorado e minucioso. Desde o corte das peças até à montagem final, quase todas as etapas passam pelas mãos do próprio sapateiro. Apenas a parte da gaspeação — a união das peças superiores do sapato — é realizada pela sobrinha.
Esta forma de trabalhar garante um produto verdadeiramente único, mas também limita a quantidade de produção. Ainda assim, José Leite prefere manter o método tradicional, valorizando a qualidade acima da rapidez.
Criar sapatos de palhaço não é apenas uma questão estética. O trabalho envolve vários desafios técnicos e físicos, exigindo precisão e resistência, “eu dou muitos golpes nos dedos.”
As marcas do ofício fazem parte do dia a dia. O trabalho manual, repetido durante horas, exige esforço e atenção constante.
Para José Leite, a qualidade é uma prioridade absoluta. Quando um sapato não corresponde às suas expectativas, prefere começar de novo.

“Eu se fizer um sapato que que não esteja em condições, não fico bem”


“Eu se fizer um sapato que que não esteja em condições, não fico bem. Porque alguns sapatos rasgam e tudo não me vale a pena estar a tirar as peças, dá mais trabalho.”
A solução, muitas vezes, passa por descartar completamente o trabalho e recomeçar.
“Pego, deito ao lixo, prefiro quero cortar um par completo do que estar a fazer um concerto.”
Esta exigência consigo próprio demonstra o nível de rigor que aplica em cada peça que produz.
Apesar dos anos de trabalho e da exigência física da profissão, José Leite continua motivado pela mesma paixão que o levou a dedicar-se a esta arte.
Para o sapateiro, o momento em que o sapato está quase concluído é particularmente especial. É nessa fase que observa o resultado do seu trabalho e sente a satisfação de ver a peça ganhar forma, “é isto o que me faz apaixonar, é eu fazer uma bota destas.”
O orgulho no trabalho é evidente quando analisa o resultado final.
“Eu olho para o sapato quando ele está quase pronto e pronto, começo a olhar para ele. Sim Senhor, está a minha vontade. Eu fico todo vaidoso, porque é isto que me orgulha e tenho a idade que tenho, mas enquanto puder mexer com os braços que eu possa fazer isto, vou continuar a fazer seja daqui a 3, 4, dez anos. Até quando morrer.”
Mais do que um trabalho, fazer sapatos de palhaço tornou-se uma parte fundamental da sua identidade. A dedicação, o cuidado e o prazer que encontra em cada criação mostram que esta é uma arte que continua bem viva.
Em Felgueiras, terra marcada pelo calçado, José Leite mantém viva uma tradição artesanal que resiste ao tempo e à produção em massa. Entre martelos, couro e formas de sapato, continua a transformar ideias em peças únicas — sempre com o mesmo entusiasmo e orgulho que o acompanham desde o primeiro par.
Mais do que sapatos cria histórias. Em cada par de sapatos de palhaço que sai das suas mãos está presente o cuidado de quem trabalha com dedicação, a paciência de quem respeita o tempo da arte e o orgulho de quem encontrou na profissão uma verdadeira paixão.
Num mundo cada vez mais dominado pela produção rápida e industrial, o trabalho deste sapateiro de Felgueiras lembra-nos que ainda existem ofícios feitos com alma.
E enquanto puder “mexer com os braços”,continuará a fazer aquilo que mais gosta: transformar um pedaço de pele num sapato especial — e um simples objeto numa grande obra de arte.

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