Artigo de opinião publicado na edição 1489 do SF de 30 de Janeiro de 2026
Há coisas que um concelho pode tolerar durante algum tempo. Obras, por exemplo. Ninguém de bom senso é contra obras, pelo contrário. Quem ama Felgueiras quer progresso, quer melhorias, quer segurança nas estradas, quer mobilidade com qualidade. O que não se aceita é o caos. O que não se desculpa é a ausência de rigor. O que não se pode normalizar é a falta de respeito pelos felgueirenses.
Hoje, em Felgueiras, o problema já não é “haver obras”. O problema é como se fazem e como se decidem. Estradas completamente rebentadas, buracos e crateras dignos de um campo minado, cortes sucessivos, vias intransitáveis e obstáculos que surgem de um dia para o outro, muitas vezes sem sinalização clara. E tudo isto em pleno inverno, quando a chuva agrava o piso e aumenta o risco de acidentes.
Quem circula todos os dias nas estradas do concelho sente na pele aquilo que alguns preferem fingir que não existe: a mobilidade piorou. O tempo de deslocação aumentou. E a insegurança também, nas estradas e nos acessos, com zonas degradadas, sinalização deficiente e obras que parecem não ter fim.
O prejuízo para os felgueirenses já não é conversa, é uma vergonha à vista de todos. Há trabalhadores a chegar atrasados. Há comerciantes a perder clientes porque o acesso foi cortado ou ficou impraticável. E há carros a levar pancada nas estradas do concelho. Isto não é “uma fase”. É o resultado direto de decisões mal planeadas. E aqui está o ponto central: falta planeamento, coordenação e método. Quando se abre obra atrás de obra sem calendarização séria, sem fases bem definidas e sem alternativas viáveis e seguras, o concelho paralisa. Pior ainda, instala-se um sentimento de abandono, como se a vida real das pessoas fosse apenas um detalhe na agenda do executivo.
Não se governa por impulso nem por propaganda. Governa-se com responsabilidade: com um plano público e transparente, com prazos claros, prioridades definidas e fiscalização exigente. Governa-se sem destruir a mobilidade e sem deixar estradas meses a degradar-se à espera de um “acabamento” que nunca mais chega.
Felgueiras merece mais do que remendos e justificações. Merece respeito. Obras feitas com cabeça, não em cima do joelho. Segurança rodoviária tratada como assunto sério, não como incómodo momentâneo. E responsáveis que respondam, com humildade e verdade, pelo estado a que deixaram chegar as nossas estradas.
Quando um concelho se transforma num estaleiro sem rumo, não falha apenas a gestão. Falha o compromisso com as pessoas. E isso, em democracia local, é imperdoável.
Se queremos desenvolvimento, comecemos pelo básico: estradas seguras, mobilidade funcional e planeamento competente.
“Não há vento favorável para quem não sabe para onde vai.” (Séneca) E em Felgueiras o vento sopra, mas o leme está ao abandono.
Jorge Miguel Neves




