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O regresso da memória de Sergude

O solar de Sergude, onde outrora viveram protagonistas da história de Portugal, parece hoje abandonado. Há campos transformados em mata e pomares sem poda. Ripas de madeira caem do alpendre, na fachada da casa. À capela já não sobra telhado, nem sino: roubado com as badaladas do temido fim da história.
Em outubro de 2025, o solar de Sergude foi incluído numa lista de 16 imóveis do Estado a alienar pelo governo, para financiamento de um programa de habitação pública.
O imóvel, situado na freguesia de Sendim, no concelho de Felgueiras, pertence ao Ministério da Agricultura desde 1989. Nele funciona uma delegação da divisão agroalimentar e pescas da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte. Três trabalhadores – um técnico superior e dois funcionários de campo – trabalham no local diariamente. Não receberam qualquer informação sobre a alienação pelo Ministério da Agricultura, desconhecendo, até à data, a origem da decisão e como serão recolocados nos serviços do ministério.
A notícia apanhou de surpresa os trabalhadores de Sergude, e resgatou a memória dos felgueirenses. De lugar esquecido, Sergude voltou às bocas do povo.

O valor patrimonial cultural e agrícola de Sergude

Sergude possui um grande valor histórico e simbólico. É lugar de factos e lendas, desde a fundação da nacionalidade até à idade moderna portuguesa.
Egas Moniz deixou a cruz latina da capela do solar, Inês de Castro, o assombro dos jardins a cada dia 7 de janeiro (dia e mês da sua morte), o Marquês de Pombal, um jardim sem carvalhos. Fabulações. As primeiras alicerçadas no facto de que o aio de Afonso Henriques e o assassino de Inês de Castro residiram em Sergude, a última na evidência das relações de Sebastião Melo de Carvalho, pessoais e diplomáticas, com senhoras e senhores da ilustre casa de Sergude.

Quinta de Sergude – foto Paulo Alexandre Teixeira

Sergude foi berço e bastião da família Coelho entre os séculos XIII e XVIII. A primeira casa de estilo medieval terá sido reconstruída no século XVI, altura em adquiriu a “traça original”, ainda hoje parcialmente preservada. No início do século XX, a casa de Sergude foi comprada em ruínas por Luiz Gonzaga da Fonseca Moreira, que entregou o projeto de restauro e ampliação a José Marques da Silva.
A assinatura do projeto da atual casa de Sergude pelo arquiteto portuense dota-a de incontestável valor arquitetónico: “Basta referir que é [de] Marques da Silva, um dos mais importantes arquitetos contemporâneos que nós tivemos”, considera o historiador Joaquim Costa, historiador felgueirense e estudioso da casa de Sergude.



À sua morte, Luiz Gonzaga da Fonseca Moreira legou o Solar de Sergude e 19 hectares de terreno envolvente ao Estado Português, para que ali se estabelecesse, segundo deixa testamentária, “um Posto Agrícola e de Silvicultura que venha a ser um centro de estudos e de experiências da melhor arte de cultivar os nossos campos e aproveitamento mais racional da nossa riqueza florestal, prestando maior assistência técnica à lavoura”.
Foi assim que em 1993 se instalou no Solar de Sergude a Estação Experimental Vitivinícola e Frutícola da DRAPN. Nesta estação desenvolveram-se experiências com vista ao melhoramento qualitativo e quantitativo da produção vitivinícola e frutícola regionais. Um dos resultados foi a criação de um repositório vegetal com 33 variedades de macieira, mais de duas dezenas de pereira, 10 de aveleira e seis variedades de damasco. Estão guardadas nos campos porque “a técnica para guardar o germoplasma [destas espécies], ainda não está apurada”, explica o Engenheiro Manuel Oliveira, técnico superior agrónomo da estação. “É património genético. Quando isto for vendido, não sei o que vai ser”, acrescenta.

O sub-valor da cultura e da agricultura

O atual estado da quinta de Sergude não faz jus ao seu passado, nem às intenções do benemérito Luiz da Fonseca Moreira. Depois de duas décadas de trabalho auspicioso, desde a sua fundação, a Estação Experimental Vitivinícola e Frutícola e o espaço que a alberga degradam-se. Há menos trabalhadores, mais campos agrícolas ao abandono e instalações decadentes.
“O maior culpado é o Estado”, aponta Joaquim Costa. O Engenheiro Manuel Oliveira, concorda: “é o desinteresse pela agricultura”. O setor enfrenta um sério desafio demográfico com uma classe profissional envelhecida e, atualmente, sem capacidade de renovação. Para além deste, o engenheiro elenca outros problemas: falta de políticas agrícolas de continuidade; uma gestão vertical pouco eficiente dos recursos materiais e humanos dos serviços orgânicos do ministério; restrições financeiras e constrangimentos crescentes pela falta de autonomia.

O terreno inclui, por exemplo, as instalações de uma escola agrícola construída nos anos 90 que nunca chegou a funcionar. Algumas iniciativas locais tentaram dinamizar o espaço mas foram barradas por entraves burocráticos ou financeiros impostos pelo Estado. A grande distância relativamente aos centros de decisão levou a que os trabalhadores do solar de Sergude e a comunidade felgueirense se alheassem do lugar.

Quinta de Sergude – foto Paulo Alexandre Teixeira



Nunca foi feito o pedido de classificação patrimonial do Solar de Sergude, apesar do seu valor. Joaquim Costa vê potencial para a classificação do imóvel como de interesse público ou, pelo menos, de interesse municipal. Mas “nunca houve interesse”, “devemos estar mais atentos ao nosso património e muitas vezes não estamos. Acontece. Às vezes abrimos os olhos tarde”, remata o historiador.

O destino de Sergude

Apesar de não estar classificado, o Solar de Sergude encontra-se sinalizado como “património arquitetónico não classificado” no Plano Diretor Municipal (PDM) de Felgueiras. O PDM prevê que qualquer obra neste tipo de imóveis respeite os seus elementos estruturais e a sua linguagem arquitetónica, com manutenção e valorização das suas características principais exteriores e interiores. Os projetos de intervenção são sujeitos a parecer prévio de uma comissão municipal do património cultural, arquitetónico e paisagístico, criada por deliberação da câmara municipal.
A mancha verde classificada na envolvente do solar tem mais de 3000 metros quadrados e é salvaguardada pela inclusão na Reserva Agrícola Nacional ou na Reserva Ecológica Nacional, ambas com jurisdição própria. É composta por terrenos agrícolas e floresta. Os terrenos agrícolas têm capacidade muito elevada para o uso agrícola genérico e são áreas não edificáveis, afetas à atividade agrícola. Já as áreas de floresta, por se classificarem como de perigosidade “elevada” ou “muito elevada” no Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios, são também não edificáveis. Em ambos os casos a lei prevê exceções, nomeadamente quando não existam alternativas viáveis de relocalização, e desde que, no caso dos terrenos agrícolas, não se comprometam as potencialidades dos solos para o exercício da agricultura.

Quinta de Sergude – foto Paulo Alexandre Teixeira


Se bem aplicada, a lei permitirá preservar Sergude. Mas, ainda assim, o futuro tem gerado inquietação na população local.
José Ribeiro, arqueólogo da Câmara Municipal de Felgueiras e redator do PDM, mostra-se otimista quanto à alienação. No setor público não existem “meios nem recursos financeiros para tratar de tudo”, “ ou está-se sempre à espera de candidaturas [para fundos comunitários] ou é muito complicado preservar estes monumentos”. Então “este tipo de edifício às vezes até nem é mau ser vendido a particulares, que é uma das forma de nós os preservamos”, conclui.
Já o historiador Joaquim Costa tem as suas reservas: “Eu desconfio muito dos PDMs. Os PDMs são para cumprir, mas ao mesmo tempo há sempre brechas. Tenho receio se for para mãos privadas (…) depende muito do tato do privado que comprar, não é? Mas alguns exemplos que eu vejo em Felgueiras, o tato é pouco. A não ser que a Câmara [se] imponha”.
Em novembro de 2025, a autarquia terá exposto as suas preocupações e procurado esclarecimentos sobre o modelo de alienação, em reunião com a Secretária de Estado da Habitação e o Secretário de Estado do Tesouro.
Houve diálogo, mas garantias e esclarecimentos parcos, sobre um processo alegadamente prematuro, revelou José Carlos Silva, presidente da junta de freguesia de Sendim e membro da delegação municipal presente na reunião.
Com a previsão do lançamento do procedimento de alienação até ao final do primeiro trimestre de 2026, as primeiras respostas não tardarão a chegar. Mas até lá, mais dúvidas do que certezas permanecem sobre o destino de Sergude.

Mariana Costa

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