Pela primeira vez na história desportiva de Felgueiras, o karaté — presente no concelho desde 1978 — recebeu um aplauso público com o reconhecimento de Rui Brochado, o maior embaixador da modalidade e fundador da Academia de Karaté de Felgueiras (AKF), distinguido com o Prémio de Figura Desportiva na Gala do Desporto, realizada no início de janeiro.
Este desportista incansável que, aos 63 anos, detém o nível II de treinador e ainda treina ativamente com os seus alunos, refletiu para o SF Jornal sobre uma vida dedicada às artes marciais — inspirada nos filmes de Bruce Lee — e que culminou na fundação da AKF, em 1995, formando gerações e levando atletas à seleção nacional da modalidade.
Para Rui Brochado, o karaté transcende o confronto físico. É uma profunda ferramenta de desenvolvimento pessoal, cuja essência reside na disciplina mental e no autoconhecimento. Longe de ser apenas um desporto, trata-se de uma arte que ensina a travar a batalha mais importante: a interior.
O conceito central da sua filosofia é que o maior desafio não reside em derrotar um oponente, mas em superar as próprias limitações — uma ideia enraizada numa tradição marcial profunda, que ecoa o espírito dos samurais.
“Um samurai passa a vida toda a preparar-se para morrer, pois quer ter uma morte digna. Para eles, isso era uma honra muito grande”, explica. Esta perspetiva confere um peso existencial ao treino: a vitória e a derrota tornam-se relativas num caminho de autoaperfeiçoamento contínuo.
“No karaté, não existem vitórias nem derrotas absolutas. O verdadeiro adversário é o próprio praticante. Mesmo quando um combate termina em derrota, compreende-se que não foi o outro quem venceu, mas sim que não fomos capazes de superar-nos a nós próprios”, sublinha.
Ao contrário de outros desportos, baseados em movimentos repetitivos onde a mente pode divagar, o karaté exige concentração total. A constante variação de técnicas, direções e combinações mantém a mente focada, promovendo um estado de atenção plena.
Brochado estabelece ainda uma distinção clara entre o karaté e muitos desportos de combate modernos. “Há muitas modalidades de combate que se designam como artes marciais, mas não o são — faltam-lhes os princípios filosóficos que o karaté preserva”, afirma.
Essa dimensão filosófica, aliada a fundamentos biomecânicos rigorosos, eleva o karaté muito além da simples troca de golpes, transformando-o num verdadeiro caminho de vida. É com base nesses valores que o mestre e a sua equipa orientam os alunos, com particular atenção às gerações mais novas.
Para compreender a dedicação de Rui Brochado, é preciso recuar à sua juventude, nos anos 70. Como muitos jovens da época, o interesse pelas artes marciais nasceu no grande ecrã.
“Naquele tempo começaram a surgir muitos filmes do Bruce Lee, e nós deixávamo-nos encantar por aquilo”, recorda. Essa inspiração cinematográfica levou-o a praticar não apenas karaté, mas também kung fu, num percurso marcado por uma determinação quase rebelde. Numa altura em que a rivalidade entre as duas modalidades impunha regras não escritas, Brochado treinava em segredo: “Ninguém podia saber que praticava outra arte.”
Apesar da exigência extrema da prática — “O karaté era muito duro. O meu pai não queria que eu treinasse porque andava sempre magoado” — e do estigma social da época — “quem praticava karaté era considerado maluco” —, Brochado contrariou todas as adversidades e manteve-se fiel ao seu caminho.
Em 1995, num concelho cuja oferta desportiva era ainda limitada a duas modalidades, Brochado formalizou a sua paixão ao fundar a associação, então denominada SKPF – Shotokan Karaté de Felgueiras, mais tarde rebatizada como Academia de Karaté de Felgueiras (AKF) para abranger novos estilos e métodos.
Com mais de 80% dos seus alunos a serem crianças a partir dos três anos, a AKF assume um papel decisivo no desenvolvimento integral dos jovens felgueirenses. “Algumas das crianças chegam até nós, por exemplo, por indicação médica, que recomenda a prática do karaté”, revela. O propósito, sublinha, vai muito além da formação desportiva: trata-se de educar “cidadãos resilientes, disciplinados e confiantes”.
O treino melhora a condição física e a postura das crianças, enquanto a disciplina e o respeito são cultivados nos rituais das aulas, com reflexos em outras áreas — como o caso de um jovem futebolista que, após iniciar o karaté, “ganhou confiança e perdeu o medo do adversário”, conta.
O treinador insiste ainda na importância do equilíbrio com os estudos, fazendo questão de acompanhar o desempenho escolar dos seus alunos. Longe de ver competição, estimula a participação noutras modalidades, acreditando que as competências adquiridas no karaté “são universais e transferíveis”.
Paralelamente, a academia — que conta atualmente com seis instrutores e mais dois em formação — promove um programa de autodefesa dirigido a adultos e centrado em técnicas de defesa pessoal eficazes. “A melhor estratégia de autodefesa é evitar o confronto sempre que possível”, explica o mestre.
Apesar das limitações logísticas, os resultados continuam a impressionar: mais de duas centenas de alunos, várias classes em crescimento e dois atletas integrados na seleção nacional da JKA — Bia Magalhães (juvenil) e Luís Brochado (adulto) — que representarão Portugal na Noruega. Estes sucessos refletem a combinação de talento, dedicação e espírito de superação que marca a história da academia.
Devido à ausência de uma sede própria, a equipa treina em escolas secundárias, ginásios públicos e outros espaços alugados, o que dificulta a realização de treinos mais intensivos e regulares. Essa limitação torna-se especialmente evidente quando competem com clubes de maior dimensão que dispõem de equipas completas e treinos diários.
“Estamos a competir com apenas dois a quatro treinos por semana, enquanto outros atletas treinam todos os dias”, reconhece, destacando o esforço e a resiliência dos seus alunos perante as dificuldades.
Ainda assim, o treinador mantém-se otimista quanto ao futuro. Defende a criação de um espaço próprio que permita consolidar o trabalho desenvolvido e agradece o reconhecimento — tardio, mas genuíno — pelo seu percurso e o da academia.
No fim, mais do que medalhas ou títulos, Rui Brochado valoriza o que fica fora do tatami: o caráter das centenas de jovens que ajudou a formar — aqueles que descobriram que o adversário mais exigente é, afinal, o que habita dentro de si.
Paulo Alexandre Teixeira




