Portugal tem a maior taxa de cancro em crianças e jovens até aos 15 anos na União Europeia, embora a taxa de sobrevivência para esta faixa etária seja alta, cerca de 80%, existem 20% que não resistem à doença.
O luto pela perda de uma criança com cancro pediátrico em Portugal é uma dor profunda. A perda contranatura de um filho tende a ser definida pela ciência psicológica como a perda mais dolorosa que qualquer ser humano pode vivenciar.
O sofrimento causado pela perda, é descrito pelos pais como “a maior dor do mundo”, provocando uma enorme sensação de vazio.
O vazio pelo qual os pais são invadidos é acompanhado por emoções como a zanga e a culpa. A zanga é resultado da sensação de injustiça provocada por uma perda tão violenta e dolorosa, associada a sentimentos de impotência, revolta e frustração. A sensação de culpa é causada pela crença de que os pais têm a capacidade de proteger incondicionalmente os filhos. Por sua vez, a culpa tem um impacto emocional destrutivo e tende a levar os pais a acreditar que falharam na tarefa de cuidar dos filhos.
Ainda que esta crença seja errada, os pensamentos são gerados pela dor indescritível que é vivenciada pelos pais.
A morte de um filho é ainda acompanhada por inúmeras outras perdas, como a perda das expectativas para o futuro, a perda dos momentos de proximidade emocional, a perda do suporte social, uma vez que as pessoas mais próximas tendem a afastar-se por não saber o que dizer, bem como a perda das dinâmicas conjugais.
É vivida uma menor disponibilidade para a vida conjugal e também para o papel parental. Os irmãos em luto acentuam que não só perderam um irmão ou irmã, mas também os próprios pais que “nunca mais voltaram a ser os mesmos”. Ainda assim, algumas relações podem ser fortalecidas pelo sofrimento da perda, que aproxima a família no sentido da ajuda mútua.
Desde 2022, a legislação portuguesa, Lei n.º 1/2022 de 3 de janeiro, concede aos pais que perdem um filho, o direito a um período de 20 dias úteis de luto parental, criando também o direito a acompanhamento psicológico de ambos os progenitores, a iniciar cinco dias após o falecimento, em estabelecimento do Serviço Nacional de Saúde.
É vital procurar ajuda profissional (psicólogos, associações como ACREDITAR ou Liga Portuguesa Contra o Cancro) para pais e irmãos, e estratégias que incluem falar abertamente, validar emoções e incentivar o regresso à rotina para encontrar estabilidade. Toda a identidade é reconstruída em função do sofrimento, é impossível regressar integralmente ao funcionamento anterior à perda, ou seja, os pais e irmãos não voltam, de todo, a ser as pessoas do passado.
Esta é a perda com um risco mais elevado de fragilidades para a saúde mental, como perturbação do luto prolongado, depressão, ideação suicida e o risco de patologias cardíacas. É necessário intervenção psicológica especializada, para facilitar a identificação de estratégias e recursos para gerir o sofrimento.
Um Conselho da UCC Felgueiras.
Enfermeiras Graciosa Ribeiro e Inês Sousa




