O mundo já não é o mesmo. Para muitos, como eu, que acreditavam que não iriam assistir a uma guerra de trincheiras em pleno século XXI, a invasão da Ucrânia foi um choque de realidade. No início do conflito, ainda tinha esperança na diplomacia, no respeito pelo direito internacional e nas sanções internacionais como forma para travar a agressão russa. A verdade tem sido outra: a guerra prolonga-se há anos, sem sinais de desfecho.
E quando parecia que o sistema internacional não podia ficar mais instável, o ano começou com um novo incidente que ameaça escalar tensões entre grandes potências. A incursão norte-americana na Venezuela, independentemente das narrativas que a tentam justificar, tem consequências que ultrapassam a política regional e constitui uma violação clara do direito internacional.
Ninguém ignora a existência de um regime autoritário na Venezuela, mas isso não legitima que o direito internacional seja contornado ao sabor dos interesses das potências militares. Em Portugal, como em tantos países, as ditaduras foram derrubadas pelos seus cidadãos e militares. Se o 25 de Abril tivesse sido imposto por uma potência externa, dificilmente o celebraríamos da mesma forma. A autodeterminação é um valor essencial que não pode ser relativizado.
Com o passar dos dias, torna-se evidente que o objetivo desta intervenção é o controlo das vastas reservas petrolíferas venezuelanas. Não é a primeira vez que os EUA demonstram interesse em territórios estratégicos e ricos em recursos. A vontade de adquirir a Gronelândia é disso exemplo, levantando até riscos para a continuidade da NATO.
O problema é simples: cada ação deste tipo abre portas e legitima outras. Se os EUA intervêm para proteger “interesses estratégicos”, como será possível impedir a Rússia de reforçar a tese de que tem direito a ocupar territórios ucranianos? Como contrariar a China quando insiste que Taiwan lhe pertence?
É fácil imaginar cenários que hoje parecem irreais, como a cobiça por territórios portugueses altamente estratégicos, falando do Açores, designadamente da ilha Terceira.
Para evitar que surjam novas “linhas rosa” nos mapas mundiais, traçadas discretamente por potências que decidem o destino de países inteiros, é fundamental uma Europa forte, coesa e assertiva. Uma Europa capaz de defender, de forma unânime, a soberania territorial, a legalidade internacional e a estabilidade global.
A União Europeia não pode continuar presa a indecisões ou respostas tímidas em crises que moldam o futuro do continente. Precisa de uma política externa clara, de capacidade de defesa própria que complemente a NATO, mas que não dependa totalmente dela, e de uma presença real no tabuleiro geopolítico global.
Paulo Soares




