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A vida não tem de ser um scroll infinito

Acordar passou a ser uma ação complementada com um simples deslizar do polegar. Antes de sabermos quem somos hoje, já vimos o que toda a gente fez no dia anterior. É um gesto simples, automático, mas nele cabe toda uma época: a de quem vive num fluxo sem fim, sempre à procura do próximo capítulo.

O que muitos consideram scroll não passa de uma invenção técnica completamente metafórica sobre o fim. O objetivo é indicar que nada termina, que tudo é substituído antes de ser realmente visto, sentido e compreendido.

Deixamos de procurar informação para procurarmos atenção. Plataformas como o TikTok, Instagram e Youtube fragmentam o nosso tempo. São os estímulos curtos e as reações imediatas que tornam o vazio cada vez mais profundo. E o resultado?

A capacidade de concentração diminui e as relações começam e acabam como swipes, porque até o seu léxico já é influenciado pela língua das plataformas. Será que o medo de abrandar é maior do que o desejo de ficar?

Deixamos de saber viver no tempo sem o querer acelerar. Quando um vídeo demora mais do que dez segundos, parece eterno; quando alguém demora a responder, interpretamos como desinteresse. Sentimos a ilusão de saber tudo sem realmente compreender nada. E os textos longos, as esperas e os silêncios passaram a ser atos de pura resistência. A lentidão tornou-se suspeita. Mas talvez seja na demora, no que não é imediato, que ainda reside a capacidade de sentir.

Mas o digital não trouxe o que de pior há no mundo. Existem novas formas de aprendizagem que democratizam o saber e oferecem oportunidades e estímulos criativos. O problema não está na esfera digital em si, mas no ritmo que ela impõe ou no ritmo que aceitamos que ela nos impõe.

Este texto não é um apelo à renúncia do digital, mas um alerta à redescoberta daquilo que é essencial. Algumas abordagens como o minimalismo digital procuram limitar a saturação de notificações e a sobrecarga de informação. Aplicações que bloqueiam distrações e a crescente popularidade do digital detox mostram que já começámos a perceber os efeitos da hiperconectividade.

Na verdade, talvez a verdadeira resistência não seja lutar contra o digital, mas a favor do tempo. O tempo que passamos connosco, o tempo que dedicamos a fazer algo bem, o tempo que oferecemos aos outros para ouvir, ver e sentir. Talvez, em vez de tentarmos fugir da aceleração, possamos recuperar a nossa capacidade de desacelerar. Porque, no fim, é no espaço entre os feeds que reside a possibilidade de nos encontrarmos novamente, porque podemos perder muito quando tudo é imediato.

Sofia Baptista Soares

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