O acolhimento familiar temporário está a mudar vidas discretamente na região, entre casas comuns que se abrem, em silêncio, para receber crianças em risco como se fossem suas. O SF Jornal foi ao encontro de uma família felgueirense que, desde 2023, é porto de abrigo para crianças que, por uma diversidade de motivos, procuram estabilidade familiar e um ambiente onde possam criar laços e afetos.
Uma família de Felgueiras que abriu a porta e o coração
Nuno Ferreira, a esposa, Vera Pinheiro, e a filha Inês, de 10 anos, vivem em Felgueiras e integram o programa de Acolhimento Familiar Temporário, através da IPSS Gondomar Social, acolhendo crianças até aos seis anos ao abrigo da nova lei que privilegia o acolhimento familiar face à institucionalização.
Contam que tudo começou com um cartaz, em Vila Nova de Famalicão, que tocou Vera e a levou a insistir na ideia de acolher crianças afastadas dos pais por motivos de proteção, mas com a resistência inicial de Nuno, “mais marcada pelo receio do apego e da despedida do que pela falta de vontade de ajudar”, explicaram ao SF Jornal.
Depois de conhecerem melhor o regime de acolhimento e de falarem com profissionais, a perceção mudou e o risco emocional transformou-se na consciência de que poderiam fazer uma diferença decisiva, “mesmo que temporária”, na vida de uma criança. Quando receberam a primeira criança, os receios deram lugar a uma sensação de missão, ao perceberem que a presença da família, com tempo, regras claras e afeto, podia funcionar como travão a uma história marcada por trauma e instabilidade.
O processo para ser família de acolhimento
Para se tornarem família de acolhimento, Nuno e Vera passaram por um processo exigente de certificação com a IPSS Gondomar Social, que incluiu recolha de documentos, avaliação da estabilidade emocional e financeira e verificação das condições de habitabilidade, higiene e segurança da casa.
Aquela instituição particular de solidariedade social, criada em 2010, é hoje entidade de enquadramento da resposta de Acolhimento Familiar “Famílias Coração D’Ouro”, em cooperação com o Instituto da Segurança Social, atuando no distrito do Porto e na Área Metropolitana do Porto.
Seguiu-se um ciclo de formação obrigatória, com conteúdos práticos e técnicos sobre o impacto do trauma, os aspetos legais do acolhimento e a gestão das emoções envolvidas, num percurso que demorou cerca de oito meses até à certificação.
Uma criança, um colo e muitos traumas
A primeira criança acolhida por esta família felgueirense chegou em novembro de 2023, num quadro de acolhimento imediato: a chamada de manhã, a receção à tarde, “trazendo apenas a roupa do corpo e uma mochila invisível de traumas”, relata o casal. “Tinha grande dificuldade em aceitar regras e limites” – explica Vera – reagindo a contrariedades com birras fortes e fugas para o quarto, num quotidiano que se tornou, no início, exaustivo para todos.
A resposta passou por rotinas estáveis, diálogo constante em família e uma atenção especial a cada comportamento “como manifestação de medo ou dor, mais do que má educação”, ressalva Nuno. O apoio técnico da Gondomar Social, em particular da assistente social que acompanhou o caso, trouxe orientações práticas para desagravar crises e reforçar a sensação de segurança, permitindo que o colo, o afeto e a previsibilidade fossem substituindo a desconfiança.
Com o tempo, a menina começou a aceitar melhor os “nãos”, a procurar a família não só para pedir, mas para estar, e a criar vínculos afetivos mais seguros. “A transformação não foi rápida nem linear”, mas Nuno e Vera sublinham que também eles cresceram no processo, aprendendo a olhar para o acolhimento com o coração aberto, apesar de saberem que a despedida faz parte do caminho.
Uma despedida e um recomeço
O projeto de vida desta primeira criança acabou por ser a adoção, depois de afastada a possibilidade de reunificação com a família biológica. Quando souberam da decisão, Nuno e Vera assumiram-se como família facilitadora, priorizando o bem-estar da criança na transição e “guardando para mais tarde a gestão da própria dor.”
Na hora da separação, as lágrimas ficaram reservadas para longe do olhar da menina, explicam, acrescentando que, junto dela, se mostraram firmes, explicando que iria para uma família onde continuaria segura e amada. Hoje mantêm contacto com a criança e com os pais adotivos, recebem fotografias e vídeos e são convidados para a festa de aniversário, o que atenua a saudade e confirma que o objetivo foi alcançado: “garantir-lhe uma família para sempre”.
Apesar da dor da despedida, a família não recuou e voltou a acolher, desta vez uma bebé de 11 meses, cuja chegada foi comunicada no dia de aniversário de Vera, como se fosse um presente inesperado. “Em apenas 24 horas prepararamos tudo o que era necessário para a receber e, mesmo sentindo inicialmente alguma defesa emocional, percebemos, rapidamente, a capacidade do coração se “esticar” e voltar a amar com intensidade”, acrescentam.
O que é o Acolhimento Familiar
O Acolhimento Familiar é uma medida de promoção e proteção temporária, aplicada pelas Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) ou pelos tribunais quando uma criança ou jovem não pode permanecer com a família de origem em segurança. O objetivo é integrá-la numa família que garanta cuidados adequados às necessidades individuais, assegurando educação, saúde, proteção, bem-estar e afeto, explicou ao SF Jornal Ana Barros, diretora técnica da equipa responsável pelo projeto, na Gondomar Social.
Até há pouco tempo, as famílias de acolhimento não podiam candidatar-se à adoção da criança que acolhiam, mas a Lei 37/2025 veio permitir essa possibilidade, desde que tal sirva o superior interesse da criança e seja avaliado tecnicamente, adiantou.
A assistente social sublinha que se trata de uma abertura pensada para alargar as alternativas de projeto de vida das crianças e não para satisfazer desejos das famílias, reforçando a importância de um acompanhamento rigoroso pelas equipas de enquadramento.
Uma necessidade urgente de mais famílias
Na perspetiva da Ana Barros, o acolhimento familiar continua a ser uma resposta “escassa” face ao número de crianças que permanecem em instituições, apesar da legislação apontar claramente para a prioridade do meio familiar sempre que possível.
“Muitas crianças chegam ao acolhimento com histórias marcadas por negligência, violência ou privação, carregando “mochilas” de trauma que exigem adultos disponíveis, afetivos e preparados para lidar com comportamentos desafiantes”, acrescenta.
Por isso, a instituição insiste na importância de motivações altruístas, focadas no impacto positivo que se pode ter na criança e, quando possível, na colaboração com a família de origem, em vez de expectativas de substituir pais.
Um apelo de Natal
Neste Natal, o apelo de Nuno e Vera é simples: que mais famílias em Portugal ponderem abrir a porta ao acolhimento familiar. Recordam que, no país, a esmagadora maioria das crianças em acolhimento ainda vive em instituições, ao contrário do que acontece em muitos países europeus, onde prevalece o acolhimento em contexto familiar, com claros benefícios para o desenvolvimento emocional.
Esta família de Felgueiras resume a experiência numa ideia: “o maior presente que se pode oferecer a uma criança em situação de acolhimento é um lar temporário onde se sinta amada, protegida e capaz de voltar a confiar nos adultos, mesmo sabendo que um dia poderá ter de partir”.
Paulo Alexandre Teixeira




