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Saúde Mental: o rosto português de um desafio europeu

O chão que hoje pisamos tem-se tornado cada vez mais frágil. Por isso caminhamos com o cuidado de quem receia encontrar novos obstáculos: vamo-nos desviando das pequenas fissuras e esforçando-nos para remendar os buracos que vão surgindo ao longo do caminho. Os sinais de degradação manifestam-se devagar: primeiro entram connosco em casa, depois sentam-se connosco à mesa e, num ápice, o entusiasmo das conversas de outrora esmaece. E resta-nos apenas o burburinho que antecede o silêncio: esse barulho ensurdecedor que não acalma, mas agita; que não tranquiliza, mas angustia.
Habitamos vidas exaustas. Por mais que tenhamos tudo, “há sempre qualquer coisa que está para acontecer”, qualquer coisa que devíamos de perceber. E, como tal, à semelhança de José Mário Branco, “cá dentro” de nós é só “inquietação, inquietação”.
A crise da habitação, a vulnerabilidade dos cuidados de saúde, os conflitos geopolíticos, a solidão digital, motivada por algoritmos que, por um lado impactam negativamente a nossa capacidade relacional e, por outro, contribuem exponencialmente para o aumento da desinformação, são fatores aos quais estamos expostos diariamente: fatores de risco para uma sociedade que está, progressivamente, a adoecer.
Nos últimos anos, o aumento dos problemas de saúde mental deixou de ser um tema invisível na agenda europeia, passando a ser visto como uma questão urgente e de extrema importância, ao nível da saúde pública e da coesão social. A pandemia expôs fragilidades e desigualdades profundas, que mostram que nos podemos estar a aproximar de uma nova crise sanitária.
Em Portugal, o cenário é preocupante. Somos, há pelo menos duas décadas, o país da OCDE com maior consumo de ansiolíticos e o segundo país com maior consumo de antidepressivos. Em média, ocorrem três suicídios por dia e, com eles, a devastação emocional de inúmeros familiares e amigos. Somos o rosto de um desafio europeu que exige medidas concretas para integrar a prevenção e o apoio psicológico em todas as dimensões da vida.
A implementação de abordagens verdadeiramente multidisciplinares, centradas nas pessoas e nas suas necessidades reais é urgente. Mas urge, também, cuidar de quem cuida. Porque só assim poderemos assegurar que a saúde mental das nossas comunidades possa refletir o futuro que queremos construir: um futuro mais justo, empático e humano.

Andreia Moreira

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