Editorial publicado na edição 1485 de 21 de novembro de 2025
Vivemos num tempo em que o telemóvel se tornou extensão do corpo. Mas quando essa extensão chega às mãos de crianças, muitas delas ainda incapazes de articular frases completas, entramos num território perigoso e um futuro incerto.
A imagem já é muito comum: bebés hipnotizados por vídeos, crianças de três anos a deslizar o dedo no ecrã com a precisão de um adulto. O que parece uma ajuda rápida para acalmar, entreter ou ocupar, tem um custo silencioso.
Socialmente, estas crianças aprendem menos a esperar, a lidar com o tédio e a interagir cara a cara. O tempo que deveria ser de brincadeira livre, experiências sensoriais reais e convívio com outros torna-se tempo de consumo passivo. A linguagem desenvolve-se pior, a atenção fragmenta-se e o contacto humano perde espaço para estímulos artificiais.
No campo da saúde, os sinais são igualmente alarmantes: perturbações do sono, irritabilidade constante, atrasos no desenvolvimento motor fino e até sintomas semelhantes aos de dependência. A dopamina fácil — clique, vídeo, cor, som — treina o cérebro para procurar gratificação imediata, deixando a criança menos capaz de tolerar frustração e de se concentrar em atividades não digitais.
O problema é complexo, mas não irresolúvel. A chave está no equilíbrio e na presença ativa dos adultos. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de lhe devolver o lugar certo.
As famílias precisam de limites claros, rotinas saudáveis e alternativas reais ao ecrã. A escola, os profissionais de saúde e a sociedade devem reforçar a ideia de que crescer implica tocar, explorar, conversar, cair e levantar — coisas que nenhum telemóvel oferece.
O que penso poderão ser algumas soluções e conselhos para os pais.
Evitar completamente o uso de ecrãs antes dos 2–3 anos e a partir daí, regular o tempo diário e aplicar regras.
O telemóvel nunca pode funcionar como “chupeta emocional” e por isso, não usar o telemóvel para acalmar birras ou preencher silêncio.
Fazer uma utilização conjunta sempre que possível: ver, jogar ou explorar conteúdos junto da criança, comentando e contextualizando.
Não abdicar das refeições, da brincadeira no quarto e momentos familiares sem telemóveis.
Encontrar alternativas reais, como brinquedos simples, leitura, atividades ao ar livre, convívio com outras crianças.
E claro, não menos importante, ser exemplo: limitar também o próprio uso, porque uma criança observa mais do que ouve.
É urgente perceber que o futuro das crianças não está no brilho do ecrã, mas na luz do mundo real. E cabe-nos a nós, adultos garantir que elas o vejam, mostrar o caminho e dar o exemplo.
Susana Faria




