Artigo publicado na edição 1476 do SF
No dia em que a Lixa celebrou os 30 anos da sua elevação a cidade, a comunidade foi brindada com um gesto invulgar: a oferta gratuita de um livro que resgata, com rigor mas também emoção, o património oral local.
Lendas e Histórias da Lixa, da autoria do professor e escultor Carlos Costa, é mais do que uma coletânea de narrativas populares — é um verdadeiro ato de cidadania cultural e uma homenagem à identidade de um povo.
O livro foi apresentado no passado sábado, dia 21, na Casa da Cultura da Lixa, num auditório lotado e integrando as comemorações do 30.º aniversário como cidade. A semente deste projeto, no entanto, foi plantada muito antes — quando o autor ouvia o sogro contar lendas locais com uma emoção contagiante. “Contava estas coisas com uma emoção tal como está aqui escrito”, recorda Carlos Costa, que sempre acreditou no valor dessas narrativas, mesmo quando eram vistas como meras “baboseiras”.
“Essas histórias têm que passar um dia para livro, pensei”, confidenciou ao SF Jornal, visivelmente emocionado após a apresentação.

Um percurso de dedicação à memória coletiva
Este não é o seu primeiro mergulho na cultura popular. Natural de Freamunde, Carlos Costa é também coautor de um estudo publicado em 2024 sobre os saberes locais da sua terra natal, em parceria com Idalino Gomes. A sua formação em Belas-Artes e o percurso como professor moldaram o olhar crítico e metódico que transparece nas duas obras.
O convívio com figuras como o professor Vieira Dinis e a experiência numa rádio local, onde divulgava lendas da região, reforçaram-lhe a convicção de que a Lixa, onde vive desde 2000, merecia uma obra estruturada, que fizesse justiça à sua herança oral.
Do recolhimento à publicação: a pandemia como catalisador
O projeto “lixense” ganhou impulso durante o confinamento imposto pela pandemia de Covid-19. “Estava em casa, mais recolhido, e comecei a escrever”, partilhou. Algumas das histórias foram inicialmente divulgadas na página de Facebook do autor sob o título Lixa = Deusa da Água, antes de se tornarem parte de um volume mais consistente.
Contou com o apoio da família e da professora Fátima Esteves, que teve um papel essencial na revisão dos textos. O autor destaca, ainda, o empenho em garantir a credibilidade do trabalho: “Procurei ir o mais ao fundo possível para que esta minha investigação tivesse valor documental.”
E conseguiu. A segunda parte da obra apresenta comentários detalhados às imagens e extensas anotações, colmatando uma lacuna na bibliografia local e oferecendo um contributo raro neste género literário.
Um livro de todos, para todos
O entusiasmo do presidente da União de Freguesias de Vila Cova da Lixa e Borba de Godim, José António Guimarães, aliado ao apoio do Município de Felgueiras, foi essencial para a edição de 500 exemplares, todos distribuídos gratuitamente à comunidade, revelou ainda o autor.
Carlos Costa insiste que este livro “não é só meu, é de todas as pessoas que colaboraram nele”. A obra é, acima de tudo, uma devolução simbólica à cidade — um espelho onde os mais velhos se reconhecem e os mais novos aprendem a valorizar a memória coletiva.
“É de todos os lixenses, vivos e falecidos”, conclui o autor, com a certeza de quem sabe que perpetuar a história é também construir o futuro. Um livro que, ao contrário de tantos outros, não se vende — oferece-se, como se oferece a própria identidade.




