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Jorge Ribeiro: o relato de um felgueirense que esteve no Afeganistão

Jorge Ribeiro foi um dos quatro militares portugueses que participou na operação de resgaste de cidadãos naquele país após os Talibãs tomarem o poder. Esta missão, de alto risco, que decorreu em Cabul, foi amplamente mediática. Este militar felgueirense, que já realizou missões no Kosovo e no Afeganistão, encontrou um cenário de grande instabilidade nesta operação de poucas horas, mas de risco máximo.


Militar desde 2010, 1º Sargento de Infantaria no Exército, Jorge Ribeiro nasceu e cresceu no centro da cidade de Felgueiras. Desde a sua infância que se considera “muito ativo e brincalhão”. Gostava de brincar na rua, ao ar livre.


Nunca foi apaixonado por videojogos e informática, ao contrário de algumas crianças da sua geração. Morava no Edifício Império e brincava nas traseiras quando este local ainda era um descampado. Queria terminar rápido os trabalhos de casa para brincar na rua até tarde. Foi nadador do Foca e aí diz que adquiriu ensinamentos para a vida.


Concluiu a licenciatura em Prótese Dentária, mas sempre quis ser militar. As histórias na Guerra de África, contadas pelo seu avó materno, foram determinantes para esta opção profissional.


Em 2010 ingressou no Exército. Esteve em Abrantes, Coimbra, Caldas da Rainha, Mafra, Viseu, e desde 2019 que serve o Exército em Santa Margarida, na Brigada Mecanizada.


Confessa-se uma pessoa normal, sem medo, com espírito aberto para desafios mesmo em cenários desconhecidos. Em entrevista ao SF, Jorge Ribeiro fala do seu percurso de vida e das missões pelo mundo.

Sempre teve uma ligação forte à natureza?

Desde cedo que tenho uma ligação à natureza. Frequentava a casa da minha avó, no Monte das Ruas e brincava bastante com os meus primos, numa zona onde existiam campos e vegetação.

Como foi o seu percurso escolar?

Comecei a frequentar o Externato, em Santa Quitéria, onde fiz o ensino primário, depois ingressei no ciclo de Felgueiras e consequentemente na Escola Secundária. Ainda durante esse período, estudei dois anos no Colégio de S. Gonçalo, em Amarante, mas regressei novamente ao liceu.

Já tinha o sonho de ser militar?

Sim, mas naquela época o exame nacional de matemática era exigente e tive que optar por outra via. Entrei na faculdade e licenciei-me em Prótese Dentária.

Mas era o que pretendia?

Foi por exclusão de partes. O que queria mesmo era ser militar. Acabei por me apaixonar pela área da Prótese Dentária. O primeiro ano correu mal, porque ia convencido que não era o que queria, mas acabei por gostar. Terminei a licenciatura em 2009 e exerci seis meses, num laboratório, em Vila Nova de Gaia.

Jorge Ribeiro em entrevista ao SF

Porque só exerceu seis meses essa área profissional?

Naquela altura soube por um tio que estava no exército, que tinha aberto um concurso para Furriéis e sargentos contratados. Havia uma vaga para a minha licenciatura, juntando-se o útil ao agradável. Desde janeiro de 2010 que estou no Exército.

Qual é o seu posto no Exército?

Sou primeiro sargento de Infantaria. Atualmente estou a servir o BMec, em Santa Margarida. Em setembro vou ser colocado no Regimento de Infantaria, em Vila Real. Sou quadro permanente do Exército.

Mas como é que surgiu essa paixão pela vida militar? Referiu que foi cedo, mas teve alguma influência?

O meu avô materno fez três Comissões no Ultramar. Era segundo-sargento enfermeiro e recordo, na minha infância as longas conversas, na altura do Natal, as longas conversas sobre a guerra, que me fascinavam. Fui um bocadinho influenciado por esses momentos.

Que tipo de histórias o seu avô lhe contava?

Principalmente vivencias e realidades típicas de ambiente de guerra.

Isso não o assustava?

Não porque sempre fui muito ativo, com uma ligação, desde cedo ao desporto.

Mas certamente que vê coisas que ferem suscetibilidades…

Nem sempre. Também não queiram fazer de nós aquilo que não somos. O dia a dia, em Portugal, fora de missões internacionais, é um trabalho como outro qualquer. Temos uma rotina diária tranquila.  Quando somos destacados para missões no estrageiro, somos postos à prova.

O facto de ter sido um desportista muitos anos, como praticante de natação no FOCA, teve influência na sua vida?

Sim, sem dúvida. Desde muito cedo estive ligado ao desporto, ate porque entrei com três anos em natação e permaneci até aos 18, quando entrei na faculdade. A ideia que tenho é que o desporto ajuda muito no desenvolvimento pessoal. Sou da opinião que a família é muito importante, mas que nos molda são os amigos. Se tivermos boas amizades, tornamo-nos boas pessoas. Caso não seja assim, acabamos por ser más pessoas. Dou graças a Deus por ter tido sempre bons amigos e pelos meus pais me terem colocado na natação.

Jorge Ribeiro explicou como foi esta missão

Foi uma boa escola para a vida?

Sim, sem dúvida. Todas as instituições se focam um bocadinho no que é o Exército pela componente da hierarquia, respeito pelos superiores, inferiores e pares. Na natação, também foi assim. Tínhamos de lutar por objetivos, individuais e coletivos. Isso fica para a vida. Ainda hoje, somos como irmãos.

De que forma são postos à prova?

A parte mais humanitária é mais complexa. Temos um lema que é “Missão dada, missão cumprida”. Independentemente daquilo que nos atribuírem na missão, temos que fazer, mas temos o lado humano. Temos coração e cabeça. Juntando crianças, caos, clima de tensão, guerra e instabilidade, mexe com qualquer um.

Em plano resgate de uma criança afegã

Como é que a sua família reage quando é destacado para uma missão?

A minha família sempre soube aceitar. Quando terminei um curso ficaram um pouco desagradados, porque investiram na minha formação e viram uma mudança radical.  Aceitaram porque perceberam que eu gostava mesmo da vida militar. Começaram a apoiar-me mais do que nunca. Quando somos destacados para o estrangeiro há sempre um receio acrescido, mas é como em qualquer profissão. Têm que confiar nas nossas capacidades, até porque nunca vamos sozinhos.

Nunca teve medo ou receio de ingressar na atividade militar?

Há coisas que passam pela cabeça, mas normalmente não. No entanto, só estive até ao momento destacado para três missões internacionais. A primeira foi uma novidade, devido ao desconhecimento em clima de instabilidade e de uma possível guerra. Quando ouvimos disparos com frequência, há sempre um receio miudinho.

Considera-se uma pessoa determinada? É verdade que só avisou o seu pai que ia para uma missão dez minutos antes?

Tento lutar sempre por aquilo que quero. Nesta última missão em que participei, avisei as pessoas a pouco tempo de partir porque foi tudo tão rápido. Nas outras temos um bocadinho mais de tempo… nesta não… Já estava em Santa Margarida onde estou a servir atualmente, deitado por voltas das 23h30, quando ligou o meu Major a perguntar qual é que era a disponibilidade para arrancar na segunda-feira. Respondi que era toda, só tinha que ir a casa buscar as fardas e foi isso que fiz. Avisei a minha mãe na primeira área de serviço onde parei. Estava de mota, nem conseguia falar enquanto conduzia. Tinha feito um passeio com uns amigos na semana anterior… foi basicamente chegar a Felgueiras às três da madrugada, preparar o saco voltar para baixo e às nove da manhã, estava pronto para arrancar. Com a minha irmã já só consegui falar no dia seguinte, quando estava a caminho de Lisboa e com o meu pai foi a meio do dia.

«Levamos uma lista, com alguns nomes, que
estiveram diretamente ligados à presença do Exército
Português, durante vinte anos, no Afeganistão»

Foi pela falta de tempo ou para que não ficassem assustados?

Automaticamente eu sabia que iam ficar assustados por causa da comunicação social. Aquilo que passava cá para fora não era o mais positivo.

A comunicação social mente é isso?

Não. Não contam as coisas como elas são, na realidade. Mesmo os nossos superiores em Portugal sabiam o que se passava. Somos uma equipa pequena e mantínhamo-nos em constante atualização, com Portugal. Depois é a maneira como a CS é contactada e o que lhes dizem. No caso da RTP, as informações foram obtidas por um afegão que ficou. A TVI foi com base naquilo que os militares vivenciaram lá.

É verdade que sempre gostou muito de viajar? Isso teve algum tipo de influência na sua atividade militar?

Sim sempre viajei muito, porque os meus pais sempre nos proporcionaram essa possibilidade. Ir para uma missão já não é tão anormal quanto possa parecer.

Adapta-se facilmente a outras culturas e outras línguas?

Sim, mas acabamos por ser obrigados a isso porque faz parte da nossa função estabelecer contactos com outros e desenrascar. Como um bom português, a palavra é mesmo essa: “desenrascar”.

Qual foi a sua primeira missão?

Foi no Kosovo, em 2016 e 2017, onde encerramos o teatro de operações, ou seja, a última missão que houve naquele território. Em janeiro parti para o Afeganistão onde permanecia até maio. Recentemente, voltei ao Afeganistão, com mais três militares portugueses.

Que consequências psicológicas ficam dessas missões? Que efeitos teve em si?

No momento da chegada há sempre uma revolta associada a uma carga emocional forte. Mas com o tempo ultrapassamos. Cada um gere as emoções à sua maneira.

Jorge Ribeiro é 1º Sargento de Infantaria

Como encarou o momento em que soube que ia participar numa missão?

É um desafio, nunca somos obrigados a nada. A participação é opcional. Sempre que há uma missão em alguma unidade, todos querem participar. Felizmente Portugal empenha-se pouco em missões de imposição de paz. Neste momento, isto só acontece com tropas especiais – Comandos e Paraquedistas – como é o caso das que estão na República Centro-africana. É o pior teatro de guerra na atualidade. No entanto, no Afeganistão a realidade alterou-se do oito para o oitenta entre janeiro e maio.

Como é que foi a sua experiência no Afeganistão?

Como referi, Portugal nunca se empenha em missões de imposição de paz, é sempre manutenção de paz. O Afeganistão era um teatro aberto há cerca de 20 anos. Nós quisemos ir, porque era mais um desafio. Ao chegar lá, em janeiro sentimos que existia segurança. A nossa missão era zelar pela segurança no aeroporto. Treinávamos todos os dias, fazíamos desportos coletivos e não pairava medo em ninguém. Desde que começou a extração das forças da NATO, até que fomos destacados para voltar, as condições mudaram radicalmente. Parecia o fim do mundo, com lixo por todo lado, viaturas queimadas, vidros partidos, pessoas a dormir no chão… coisa que não acontecia há três meses atrás.

«Parecia o fim do
mundo, com lixo por
todo o lado, viaturas
queimadas, vidros
partidos, pessoas a
dormir no chão… o
que não acontecia há
três meses atrás»

Esteve várias vezes em contacto com crianças, como é esse cenário?

É isso que nos move… A missão era mesmo essa… estava a extrair uma família: pai, mãe e três filhos menores… e é isso que nos move (suspiro). No momento em que agarrei a primeira pessoa, só me apetecia desfazer em lágrimas. Após esse momento, olhei para a população e ganhei uma força incrível. Só quer é tirar mais, mais e mais…

Mas a sua missão era especificamente retirar pessoas?

Não. Nós levamos uma lista, com alguns nomes, que estiveram diretamente ligados à presença do Exército Português, durante vinte anos, no Afeganistão. Foi feito um contacto prévio com essas pessoas, para perceber se tinham interesse em vir para Portugal. A nossa missão era buscar as que disseram que sim. Com a bandeira portuguesa junto a nós, essas pessoas tinha um ponto de referência para nos identificar. Todas essas pessoas eram Afegãs. Tal como disse o Ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, eram maioritariamente intérpretes e tradutores e as suas famílias.

Como felgueirense como se sente ao participar numa missão tão mediática? 

Não posso especificar como felgueirense, mas como português. Sinto que é servir um bem maior: estar ao serviço da nação para o que for preciso.

O que vai fazer a partir de agora, após esta missão?

Voltar à rotina normal, espero continuar a servir o exército até à reforma.

Jorge Ribeiro gosta sua profissão. Diz que os militares portugueses gozam de boa imagem no exterior.

Mas está disponível para participar noutras missões humanitárias?

Sim, sempre que for preciso e me chamarem estarei disponível.

Como funciona o recrutamento para esse tipo de missões?

Depende das Unidades. Há muitos regimentos e poucas missões que têm que ser distribuídas pelos vários regimentos. É um sistema rotativo. O mais certo é que volte a ser possível participar noutra atividade do género. Cada uma com uma missão muito especifica. Esta última em que participei era da NATO.

Há alguma situação caricata que tenha vivenciado na sua profissão?

Há sempre… Já são tantos anos e tanta coisa que acabamos por esquecer. Se calhar a mais caricata que me aconteceu, foi no último ano. Precisávamos de uma viatura para fazer parte da missão e fizemos contacto com os turcos, que disseram que nos davam uma carrinha. Quando fomos ver o veículo evidenciamos que estava a cair aos bocados. Pedi a chave, mas não tinha chave… era ligação direta. Fazíamos o transporte naqueles dias, sempre com a ligação direta. Só funcionava a primeira e a segunda mudança na caixa de velocidades, a embraiagem colava… Para percorrer seis quilómetros demorávamos cerca de uma hora.

A tropa manda desenrascar?

Completamente… Mas a carrinha serviu. Mas é para perceberem como está aquela situação.

Nos países onde atuam, nessas missões, como é que a população olha para as forças internacionais?

Por experiência própria, toda a gente gosta dos portugueses. Toda a gente… Sejam do Kosovo, da Albânia, mesmo os próprios Afegãos, sempre olharam para os portugueses com bons olhos e com confiança. No caso dos Americanos não é assim.

Porquê?

Os americanos não são como os portugueses, que chegam com humildade e com um sorriso na cara. Chegam com arrogância e com uma postura autoritária.

Os militares portugueses têm características mais humildes?

Sem dúvida. Damos muito às pessoas e mostramos confiança. Aliás quando estão só portugueses sente-se mais segurança, coisa que não é assim com outras forças.

Como descreve o cenário no Afeganistão? Já referiu que está um caos, mas o que via à sua volta?

Durante os primeiros cinco meses era normal, com horários e com rotinas. Nestes últimos dias era: “salve-se quem puder”. É o caos, desordem, instabilidade, medo. Não há horas para dormir, não há controlo de acessos… A aflição das pessoas sente-se mais nos locais de extração, no aeroporto não tanto. O que notei mais foi a desordem, devido à aflição do momento.

Agora que as coisas estavam a ficar mais instáveis, não tinha receio de perder a vida?

Há sempre algum receio, mas quando começamos a trabalhar em prol daquele objetivo, falo por mim, esquecemos o receio e queremos é cumprir.

Que tipo de relação existia entre os Talibãs e as forças internacionais?

Com os Talibãs nenhuma, num clima constante de ameaças. Mas a gente tinha que continuar a trabalhar como se nada fosse. Com maior ou menor segurança claro. Não lidamos diretamente com eles… Nós estávamos dentro do aeroporto… cheguei a sentir que os Talibãs estavam quase do nosso lado, neste último período. Tanto é, que o ataque não é por parte dos Talibãs, mas do Daesh. Eles querem voltar a governar o país e quem não estiver com eles que saia.

E a perda de direitos da mulher?

Não lidamos diretamente, mas sabemos que é complicado. A primeira história que tivemos conhecimento, desta última vez, foi a tentativa falhada por parte de mulheres afegãs. Para conseguirem passar pelo check point afegão, tiveram que ser acompanhadas por um homem, porque não podem andar sozinhas. Automaticamente não as iam deixar passar nesse local… aquilo que ouvimos não é de todo o melhor para a mulher.

«Os próprios Afegãos, sempre olharam para os
portugueses com bons olhos e com confiança»

Tem algum objetivo ou algo que gostasse de fazer?

Não… Eu penso em viver o dia a dia… treinar e estar apto, caso seja chamado.

O exército português está em alta?

Está a atravessar uma fase muito negra porque há falta de recursos humanos. Há sim uma preocupação acrescida e estar bem.

Quando chega a Felgueiras, não sente um choque dadas as suas vivencias fora?

Não, porque gosto da calma de Felgueiras. Apesar de saber que nunca vou conseguir trabalhar aqui perto, foi a cidade que escolhi para viver. Podia optar por uma cidade mais perto de um regimento, mas gosto de Felgueiras, apesar de ter aqui as minhas raízes. Se bem que há muita coisa que não gosto nos felgueirenses, nomeadamente a mentalidade. Os felgueirenses têm uma mentalidade complicada e tacanha. São muito materialistas…

O meio militar obriga a desenrascar com pouco… Felgueiras é o oposto?

Custa um bocadinho. Os felgueirenses não são bairristas. Falam que gostam de Felgueiras, mas preferem almoçar ou jantar fora e recorrer a tudo de fora. Em Felgueiras só gostam de ostentar, mas apostar na cidade não e é isso que me revolta um bocadinho. As pessoas dizem que Felgueiras parou no tempo e é normal… temos vilas à nossa volta muito mais desenvolvidas, infelizmente. A culpa é dos felgueirenses. Já passei por várias cidades e não noto metade do que vejo aqui.

 O que mais gosta de fazer dentro da sua área profissional?

Gosto de lidar com pessoas, isto é, de estar em contacto com as crianças, instruí-los, treinar com elas e mesmo em pós-laboral, brincar um bocadinho com eles. Mas graças à minha área, em qualquer ponto do país encontro alguém conhecido porque o exército é isso mesmo. É um sentimento que se calhar não existe na maioria das empresas, mas no exército sim.

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