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InícioCulturaJoaquim Mendes: "As pessoas deitam fora coisas que nunca foram usadas"

Joaquim Mendes: “As pessoas deitam fora coisas que nunca foram usadas”

Tem 63 anos e é um artesão que
com a madeira faz todo o tipo de peças,
das mais “utilitárias” às de “decoração”.
Natural da Pedreira, Joaquim
Mendes, recorda que nasceu no
Lugar da Fraga, onde a sua mãe, com
98 anos reside. Ligado a este setor
“desde muito cedo”, explica que sempre
foi “marceneiro”.

Joaquim Mendes tem vários trabalhos expostos. – Semanário de Felgueiras

Apesar de ter
começado a trabalhar com 12 anos, o
seu contacto com a madeira começou
antes, até porque o seu avô era carpinteiro.
“Ele costumava ficar muito chateado
comigo porque roubava as portas
nos rios, que serviam para tapar a
água dos moinhos, para fazer rodas
e motas de madeira”, conta. Sempre
gostou de artesanato e fez um pouco
de tudo. “Construi um barco e um
andor com 15 metros para as festas
de Nossa Senhora da Aparecida, em
Lousada. Também fiz uma coronha,
em nogueira preta para uma arma”,
acrescenta. O artificie recorda o seu
amigo, Manuel Pinto, “que já partiu”
até porque juntos produziam guarda-
-joias de livro, com um segredo, para
ninguém conseguir abrir. “Esse meu
amigo era um marceneiro de excelência.
Aprendi muito com ele”, diz. No
seu percurso profissional passou por
uma fábrica de móveis, onde laborou
muitos anos. “Foi na época do 25 de
Abril. As greves eram constantes e a
tensão também”, explica. Um dia, o
seu patrão implicou com o seu chapéu
e Joaquim Mendes percebeu que
estava na hora de abandonar aquele
trabalho. Foi assim que começou um
projeto sozinho.

“Comecei a trabalhar
na varanda de uma casa, até criar
a minha oficina”, diz. Fazia armários
de cozinha, ainda sem encomendas e
a reputação passou de boca em boca.
“Recentemente um senhor perguntou
num estabelecimento, onde podia
encontrar um bom artesão que
lhe colasse uma cadeira que durasse
uma vida. Soube mais tarde que me
sugeriram”, comenta. O artificie pretende
explicar que “um trabalho bem
feito” acaba por ser reconhecido. No
entanto, não considera que haja muitas
pessoas ligadas a esta área. “Só
algumas é que sabem mesmo trabalhar
a madeira”, explica. As grandes
superfícies comerciais vieram abalar
o trabalho dos pequenos artesãos,
apesar de Joaquim Mendes, acreditar
que nesses locais há “madeiras para
tudo, o que varia são os preços”.

Alguns móveis foram encontrados na rua.

Mas não considera que se comparam ao
trabalho de um artesão. “Algumas lojas
vendem produtos com qualidade,
no entanto estão muito associados ao
usa e deita fora”, refere. A perfeição,
para si, é evidente nesses produtos,
mas a segurança “não é a mesma”.
“Há vários anos atrás, uma senhora
tinha comprado uma cama na Moviflor
e no dia seguinte pediu-me que
a arranjasse porque ela tinha partido”,
conta.

As madeiras também têm
um papel fundamental na qualidade
de um produto, embora “as pessoas
pensem que não”. “Tenho um móvel
em que a madeira foi seca cerca de
um ano e seis meses, ao ar livre. Nos
dias de calor era regada cerca de vinte
vezes por dia, para posteriormente
não dilatar”, acrescenta. Desde o
abate das árvores à manufaturação, a
madeira passa por um processo exigente
que se vai refletir anos mais
tarde. Na sua ótica, apesar de existir
vários tipos de madeira, a castanha
é que tem melhor qualidade. “Outra
coisa importante é que esta deve ser
encerada e não envernizada”, explica.


O artesão já entrou numa discussão
com um comerciante, numa feira
medieval em Lousada, que defendia
que a madeira de castanho não era a
melhor. “Se formos a palacetes com
cerca de 500 anos, é esse material que
é usado. Só que é preciso ter conhecimento”,
diz. Apesar de ter produzido
peças de artesanato cerca de 20
anos, decidiu parar há onze “porque
estava cansado”, mas não nega pedidos.
“Vou fazendo, mas não com
a mesma regularidade”, diz.

Relógio centenário. Semanário de Felgueiras

Recentemente,
um popular pediu-lhe uma
masseira, um ferro de tirar o pão do
forno e a pá para colocar no forno.
Joaquim Mendes conta que é gratificante
porque esse cliente acabou por
levar mais coisas, reconhecendo a qualidade
dos produtos. Já participou em
feiras em várias localidades, mas deixou
de o fazer.

Peças de artesanato – Semanário de Felgueiras

“As pessoas gostavam
mesmo muito. Cheguei a participar
em Baião, Marco de Canaveses, Lousada
e Felgueiras”, comenta. “Mas
continuamos a fazer de tudo, desde
colheres de pau, caixas para guardar
pão, pás para o forno, guardanapeiros,
salgadeiras, louceiros antigos,
motas de pau, cavalinhos a rodinhas
de ferro com guiador”, revela.

Atualmente,
a oficina é dirigida pelo seu
filho. “Tenho um sucessor à altura,
aliás melhor até”, comenta. O artesão
assume que não foi o seu principal
professor. “Ele aprendeu fora.
Quando veio trabalhar comigo, a oficina
já estava montada. Entrou nesta
área por sua convicção”, explica. Joaquim
Mendes enaltece as qualidades
do descendente. “Sou apenas marceneiro.
Ele é marceneiro, carpinteiro e
restaura peças”, conta. “As pessoas
não têm noção daquilo que deitam
fora. Encontro tantas coisas magnificas
no lixo. Restaurei uma comoda
que encontrei em Lousada e está totalmente
útil. Só não tinha espelho
e eu arranjei. Mas tenho mais peças
dessas.

Fomos ao local conhecer alguns dos seus trabalhos – Semanário de Felgueiras

Quando passo em locais e
noto que tem peças recuperáveis, trago
para a oficina. As pessoas deitam
fora coisas que nunca foram usadas”,
diz. Atualmente o trabalho chega a
vários pontos do mundo.

A sua filha,
apesar de não estar diretamente ligada
à madeira, gostou sempre de artes
e pode ter tido a influencia nos pais.
“Já a minha falecida esposa, bordava”,
recorda. Uma família ligada ao
artesanato, até porque a sua irmã
produz “lencinhos dos namorados”.
“É bordadeira e sabe fazer mais de
duzentos pontos. São pinturas autênticas”,
diz. Lamenta que o artesanato
esteja muito “achinesado” e não seja
de confiança. “Nesta casa ou se faz
bem ou não se faz”, declara. “Gosto
de fazer tudo, mas gosto mais quando
é desafiante e me obriga a pensar”,
avança. Em jeito de conclusão
acrescenta que para trabalhar com
a madeira é preciso “imaginação e
criatividade” e deseja que esta arte
nunca termine.

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